Velhos jabs

Quinta-Feira, 15 Maio, 2008

Charles vende sucos, num destes carros adaptados. Meu pai reconheceu Charles quando atravessamos a rua. Fomos até lá. Charles era, segundo meu pai, um grande pugilista, dono de uma esquerda avassaladora. Ninguém ficava muito tempo em pé, no ringue, tendo Charles como oponente - meu pai falou orgulhoso. Os olhos de Charles brilharam iguais aos do velho. Os dois voltaram a ter vinte e poucos anos. Falavam num ritmo acelerado. Charles contou que não enxerga mais de um olho. Que consegue se virar com o negócio de sucos e latinhas. Tem um pequeno vira-lata amarrado perto do carro, o Golias  -  pra proteção, diz ele. Charles envelheceu, meu pai também. Mas não estão amargos, só velhos. Velhos e seus jabs precisos em oponentes invisíveis, como o câncer, a cegueira, a falta de sorte.


Enquanto ela faz as unhas

Quarta-feira, 14 Maio, 2008

Sou católico. Dizem que é só quando me convém. Mentira. Acredito na crucificação, na ressurreição, na circuncisão - isso é do católico? Bom, não interessa. Ela tinha ido ao salão. Fazer as unhas, cortar o cabelo e sei lá mais o quê. Com exceção do cabelo, o resto me parece sempre igual. Parecia uma gralha. Falava da viagem de navio o tempo todo. Fiquei com náuseas só de ouvir. Pediu pra eu assinar a apólice de seguro. “Mor”, você viu que o prêmio subiu? Odeio ser chamado assim. Tenho nome, falei. Mal humorado, pé no saco, careta - recebi de volta. Eu tinha visto. E daí? O que isso queria dizer? De nada adianta. Eu iria estar morto mesmo. Filhos da puta - falei. A mensalidade também subiu. E o telefone? Você viu? Não e não to nem aí com o telefone. A viagem me incomodava. Quinze anos antes e eu estaria eufórico. Quinze anos antes e eu estaria com a minha ex-mulher, feliz, feliz não, mas tranqüilo. Ela cuidava de tudo. Isso me acalmava. Wilma - assim mesmo, com dáblio, era uma catástrofe. Uma criança com um belo par de pernas, um traseiro… o resto era normal. Isso incluía me tirar do sério. Falei que não sabia se era uma boa ficar uma semana no Caribe. Ela perguntou que tipo de idiota não gostaria disso. Um tipo eu. Não sei. Não me parecia uma boa idéia.  Eu sou circuncidado - falei. Ela botou a cabeça no vão da porta. Ficou lá me olhando. Veio na minha direção só de toalha. Tava muito gostosa daquele jeito. Você tá bem? Sim, claro. Estou ótimo. É que essa viagem… não sei… tem alguma coisa errada. Tá, vamos fazer o seguinte: você pode ir direto até lá de avião. Eu vou de navio. Eu sempre quis viajar de navio. Não vai ser a mesma coisa sem você, mas, enfim. O que acha? Era sensato. Retiro o que disse sobre Wilma. Mas é um tempão longe, né? É. É sim, mas quem não quer embarcar no navio é você. Ah! Megera filha da puta. Eu sabia. Mais cedo ou mais tarde ela ia se manifestar, sair do cantinho onde tava encolhida. Tava só esperando um pretexto. Pois agora eu vou. Eu não te entendo, sabia? Eu sou circuncidado. Pára com essa merda! Eu sou. Não é. Não é e você não é mais criança. Sou sim. Peguei a faca de cozinha. Tirei pra fora e cortei com perícia. Saiu muito sangue. Ela desmaiou quando viu. Decidi tirar o coração dela também. Ela jamais ia entender o meu temor.


Nossos “irmãos” extraterrestres

Quarta-feira, 14 Maio, 2008

Lançamento da revista Coyote - em Londrina 16/07

Quarta-feira, 14 Maio, 2008

Pena que não vou poder estar lá pra ver isso de perto. Gostaria muito. Fica aqui o convite.

COYOTE ATACA EM DOSE

DUPLA E

COMEMORA COM RECITAL

     A revista londrinense de literatura e artes COYOTE, seguindo em sua proposta de divulgar a arte e literatura londrinense, brasileira e mundial e publicar novos autores, volta à cena com dois números simultâneos. Entrando em seu sexto ano de existência, COYOTE é considerada uma das mais importantes revistas culturais brasileiras, e uma das poucas a sobreviver fora do eixo Rio-São Paulo.

         Para comemorar o lançamento acontece, nesta sexta-feira, dia 16, às 22:00, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103, entre Quintino Bocaiuva e JK, fone 3344599 8) a NOITE COYOTE, uma noite com música e poesia. Rodrigo Garcia Lopes, Christine Vianna, Márcio Américo, Karen Debértolis e Maurício Arruda Mendonça estarão lendo textos das duas edições.

Serviço: NOITE COYOTE. Lançamento dos números 16 e 17 da revista londrinense Coyote, com leitura de poemas e música.

Quando: Nesta sexta, dia 16 de maio, às 22 horas

Onde: Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103, entre Quintino Bocaiuva e JK, fone 3344599 8)

Preço da revista: R$ 5,00.

COYOTE é uma publicação da KAN Editora, editada por Ademir Assunção, Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes. Arte final: Beto. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras. Tiragem de 1 mil exemplares.                                                                                                    

COYOTE. 52 pgs. // R$ 5  Uma publicação da KAN Editora.

Vendas em livrarias de todo o país ou pelo site: www.iluminuras.com.br

email: revistacoyote@uol.com.br / rgarcialopes@gmail.com / Fone: (43) 3334-3299 – Londrina.: revistacote@uol.com.br PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA (PR)

 


Desculpe-me por pensar

Terça-feira, 13 Maio, 2008

E-mail. Alguém aconselha literatura de auto-ajuda. Que é isso? Dizia que “tal”, era o livro. Que “tal”, era o problema. Que “tal”, resolveria. Que tal você ir pra… o problema era grande. Não dava pra dimensionar. Também ali o teu e-mail. Me senti estranho. Há muito tempo não me sentia estranho, só fazendo parte. Não preciso mais sair de casa, nem quero. Tenho comida chinesa na geladeira. Não é chinesa, mas quero acreditar que sim. Deixei muita coisa para trás pra seguir um sopro, um sussurro. Preciso de muito mais. Preciso de uma viagem tranqüila, contra o vento. Isso te assusta? Não é nada perto de um câncer e do destino traçado. Um dia a gente acorda e a dor faz um furo na testa, no fígado, no cu. Uma marca. Eu lembro que deveria ter voltado e pedido desculpas. Mas que porra! Pedir desculpas? Pra quê? Outro dia passei perto da padaria. Não consegui entrar. Queria cigarros - isso deu vergonha. Não o cigarro, precisar pedir. Me vi implorando. Vi você do outro lado dizer não e sorrir superior. Não suportaria cinco segundos. Foi o tempo que o ar faltou. A garganta esmoreceu. Deve ser o câncer. Atirei o telefone contra a parede. Não vou agüentar pedir perdão.


Domingo

Terça-feira, 13 Maio, 2008

Domingo, quatro da tarde, eu ando de pijamas pelo apartamento. Mentira. Não uso pijamas. No bar ao lado da rodoviária, homens assistem ao jogo na TV. A maioria bebe cerveja, mastiga alguma coisa e olha pra rua sem nenhuma expressão. O varredor de rua se apóia na vassoura. Não tem mais vontade de continuar a varrer, mas ainda falta muito até acabar o expediente. Três andares abaixo, o veterano de guerra limpa a arma e pensa mais uma vez em suicídio. Recua por temer a Deus. Marina  acabou de acordar. Teve outro daqueles pesadelos onde era perseguida por serpentes. Acordou e se deu conta que estava sozinha outra vez. Tomou um copo de água gelada e foi ao banheiro. Penso em Marina todos os dias, mas não tenho coragem pra telefonar e dizer o quanto sinto a sua falta.


Não ouviu ainda?

Sexta-feira, 9 Maio, 2008


Vai marcar, cuzão?

Quinta-Feira, 8 Maio, 2008

Coyote n° 16

 

Coyote n° 17

Em livrarias de todo o país ou pelo site: www.iluminuras.com.br / e-mail revistacoyote@uol.com.br


Jazz of Beat Generation

Quinta-Feira, 8 Maio, 2008

Estou ouvindo “Jazz of Beat Generation” (tanks, Gabi). Tem a narração do Jack Kerouac** dando uma amostra do que seus olhos e ouvidos estavam captando da cena toda (meu inglês é muito tosco, então vou ter de ouvir mais pra sacar o que ele tá lendo), além do Thelonius Monk, Dexter Gordon e Miles, pra ficar nos que eu gosto. Era uma época de Big Bands/Bebop. Big bands são meio comportadinhas e tal, mas podem te surpeender também. Prefiro os artístas buscando e descobrindo algo, conforme o Bebop e Big Bands iam passando. Dá pra notar o baixão ainda embutido na estrutura rítmica da banda. É um belo registro da época. E tem a narrativa do kerouac - só por isso já vale.

**Jack Kerouac / The Beat Generation

A Love Supreme

Terça-feira, 6 Maio, 2008

Passei a maior parte da minha vida sem entender da  (de) onde surgia a música verdadeira. Estou começando a entender. Ela estava aqui o tempo todo, só esperando uma oprtunidade. Gracias, Trane. Que Deus te abençoe, esteja onde estiver.