terça-feira, 29 outubro, 2013

 

loureed1

 

Caminhamos até a ponte através da noite quente e úmida.  Ele tirou a carteira de cigarros do bolso da jaqueta preta de couro e um isqueiro do bolso da frente do jeans apertado. Olhei para o seu rosto duro através da chama do gás queimando e me senti confiante. Tudo nele estava perfeito. Tudo nele passava uma segurança incrível. Nada parecia estar fora do lugar. Aos poucos os olhos iam se ajustando e as sombras tomando a forma de pessoas, como se antes fossem pedaços da ponte ou apenas o vazio. A alguns metros, três ou quatro pessoas fumavam um cachimbo e a erva tinha um cheiro forte e doce. Ele fumou o cigarro inteiro e então amassou o filtro com o tênis branco de cano alto. Quando eu pensei que ele ia dizer alguma coisa, levantou a gola do casaco, colocou as mãos nos bolsos de trás da calça e se encostou meio torto na parede.  Perfeito, pensei. Comecei a suar frio na mão. Isso sempre acontece quando fico ansioso. Pedi um dos cigarros dele e ele me estendeu o maço e depois de um pequeno estalo o isqueiro produziu a sua luz bem na minha frente. Pensei em quantas vezes ele fez aquele mesmo gesto e quantas mais faria ao longo da sua vida. Imaginei o gesto envelhecendo, talvez perdendo um pouco do maneirismo, da velocidade certa, da precisão em que a chama fica da ponta do cigarro. Então em meio ao silêncio pensei na sua voz, nas coisas que ouvi dizendo, lento e preciso, sobre tudo que cerca e que prende e que solta em seu mundo. Senti um frio cortante subindo pelas minhas costas e girei sobre os calcanhares. Fiquei assim, com ele atrás de mim e na frente um emaranhado de luzes, umas vivas como o sangue sob a pele, outras inertes, frias, pálidas, que pareciam estar esperando, como nós dois nesse exato momento, que todas as aflições fossem empurradas goela abaixo.

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