Sobre amanhã, aquela letra de música

terça-feira, 1 outubro, 2013

Donald, como o pato, pensou. Nunca entendeu por que merda tinha este nome. Olhava para as revistas e jornais na banca sem o menor interesse nas notícias requentadas de sempre. Comprou dois maços dos vermelhos e um isqueiro – essas coisinhas que fabricam hoje vem com a metade da carga e sempre te deixam na mão. Chineses de merda. Pensou em falar alguma coisa com o jornaleiro, mas desistiu. A rua sempre cheia de maltrapilhos. Ele próprio um, tentando desfazer o nó do mal estar que o almoço de boteco sempre fazia no seu estomago. Tinha o estomago fraco, falou um médico. Nunca mais voltou na porra do médico. Como acreditar num careca? O cara nem cabelo tinha e vinha cagar regra com o estomago dos outros. Espelho, meu amigo. Pensou que tinha que começar a organizar a mudança. Ia morar com Dóris. Ela estava empolgada e ligava pelo menos três vezes em cada hora querendo saber a opinião dele pra tudo que ela achava importante. O que ia fazer com a coleção de gibis? E os filmes? Quando pensava na coisa toda, não via vantagem nenhuma em ir morar com Dóris. Nesse meio tempo ela ligou e disse que o apartamento dele – quitinete, ele corrigiu Dóris, tava uma zona e uma imundice. Que ela não encontrava a conta de luz pra dar como comprovante pra alguma coisa que era importante. Não tinha a mínima ideia da onde estava o papel que Dóris queria, mas sabia onde estava o livro com as quinhentas coisas a se fazer antes de morrer, ou alguma coisa do gênero. Riu disso, da morte. Pra morrer tem que viver primeiro. Uns dizem que a gente está morto e daí nasce de novo e de novo… pura burrice, pensou. Se ele estivesse morto ia ficar como estava, mortinho e quietinho no seu lugar. Pra que nascer? Pra comer essa merda de almoço? Trabalhar nesse emprego que nunca vai dar em nada? Pra ir morar com Dóris? Foi ideia dela. Ele achava que estava bem onde estava, mas Dóris… bom, ela era um furacão e quando achava que alguma coisa tava fora de lugar, lá ia Dóris tentar colocar as coisas no eixo. Conheceu Dóris num puterinho que fica aberto sempre, sem nunca fechar. Foi por causa da batata frita.  Depois de uma noite vagando pela rua e bebendo com uns amigos sem rumo, achou que devia comer alguma coisa – o estômago, pensou. Entrou no bar e ficou olhando como as garotas sugam o sangue e a grana dos velhos idiotas e brochas, que se dizem durões e viram garrafas e mais garrafas de uísque paraguaio, com as putas a tiracolo, rindo sei lá do que, mas sempre rindo com toda aquela falta de dentes. Pediu batata frita e sentou no canto do balcão e ficou ali, olhando pro tampo surrado com umas merdas escritas. Foi quando a batata chegou que notou Dóris. Ela disse alguma coisa sobre a batata estar nadando ou se afogando em óleo ou alguma coisa parecida. Ele colocou sal e empurrou o prato pra perto de Dóris com um “pode pegar quantas quiser, dona”. Alguma coisa aconteceu ali, mas ele não se lembra, não por estar bêbado, pois nunca ficava bêbado, tinha desenvolvido o hábito de tomar uma garrafinha de água entre um copo e outro, só que não estava mesmo interessado no que aquela mulher falava, só isso. Depois desse dia, ela apareceu no apartamento dele com umas coisas que comprou no supermercado e fez comida no fogão portátil de duas bocas, praguejou como uma louca e se escandalizou por ele não ter uma geladeira descente. Mas o que é descente nesta vida? Pensou nisso enquanto tomava uma dose da garrafa de Smirnoff que estava em cima da televisão 29 polegadas. Tem sempre alguém tentando te salvar desta merda, mas ninguém pergunta se você quer mesmo sair do purgatório. Donald… por que este maldito nome de pato? O seu pai só poderia estar de sacanagem quando registrou o nome. Agora tinha de carregar, além do nome, as gozações que vinham com ele e agora Dóris.  Sentou num dos bancos atrás da livraria com nome de escritor famoso e pensou que se fechasse os olhos, o mundo talvez acabasse. Ficou assim por uns trinta, quarenta minutos, até que um guarda veio e bateu no seu ombro perguntando se estava tudo bem, ao que ele respondeu: conhece Dóris, seu guarda?

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Bar de bordél

terça-feira, 25 junho, 2013

Nos bares dos bordéis
A diversão é barata demais
Como a cachaça, que queima sua garganta
Mas você tem, tem que engolir, tem que engolir
Existem rosas vermelhas
Em cada canto
Em todos eles um
Um novo pranto
Enche o vazio de vazio
Enche o vazio de vazio
Com suas mulheres brancas sem saber
A quem vender
Seu único produto, único
Mas tem que entrar na fila
Pra sobreviver
Tem que entrar na fila
Nos bares dos bordéis
Esta é a diversão que lhe cabe
Mesmo que não entenda
Por que foi que entrei
Por que foi?
Por que foi que entrei
Por que foi?
…As luzes vermelhas escondendo a parte feia do seu lado bonito, cada vez aumentando mais até esconderem você…


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