Suffragette City

quinta-feira, 6 novembro, 2014

Suffragette City. O letreiro acendia e apagava. Tinha também, na parte de cima, um perfil de mulher com um cigarro. A fumaça era rosa. A mulher era verde amarelado. Sempre gostei de ficar olhando esses luminosos. Quando fiz oito anos, meu tio me deu um pequeno abajur de neon. Ele não acedia e apagava, como as luzes que eu via na rua. Então eu ligava e desligava o interruptor pra fazer o efeito. Quando fui para o orfanato, com nove, me confiscaram o abajur. Disseram que devolveriam quando eu saísse. Eu não saí antes dos dezenove. Não fui adotado. Fui enviado pra uma escola para crianças, jovens no caso, que não tem família. Do que eu posso chamar de família, só conheci o meu tio e ele morreu indo comprar pão. Levou dois tiros – foi o que disseram. Nunca mais vi o abajur. Estava pensando nisso, me preparando pra acender um cigarro quando uma negra com um corpo grande e forte saiu pela porta lateral e encostou na parede um pouco a frente da onde eu estava e acendeu um cigarro pequeno. Achei que era um baseado, mas não tinha cheiro de erva. Ela deu uma série de cinco tragadas bem fortes, daquela que fazem a cabeça girar e as pernas amolecerem e jogou a bituca longe com os dois dedos da mão direita. Depois jogou a cabeça pra traz e deu uma risadinha sacana e entrou pela mesma porta que tinha saído. Fiquei olhando pela calçada onde poderia ter caído o cigarro. Depois de um tempo notei que ele estava entre o poste e a lata de lixo. Ela quase tinha acertado o alvo. Peguei a vassoura e pá e juntei a bituca e coloquei no carrinho. A rua era longa, a noite era longa e praticamente todas as boates, em qualquer dos lados da rua, subindo ou descendo, tem letreiros de neon coloridos e negras corpulentas que fumam cigarros depois de um programa.


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