Para Pedro Camacho

segunda-feira, 30 setembro, 2013

Doce de leite espalhado pelo chão. Isso só confirmava a suposição de que algo, ou alguém, no universo, não ia com a sua cara. Conferiu de perto: todo o pote arruinado. Tinha sido presente de sua tia, que mora no interior e fabrica todo tipo de coisas que possa ser possível fabricarem com leite e açúcar. Costumava elogiar, sempre que podia, essa qualidade da tia. Não foi diferente desta vez, só o modo, por carta, que diferia do seu padrão habitual. Desde que chegou à capital tinha suposições, e elas iam pouco a pouco se confirmando, que fora amaldiçoado. Da primeira vez, foi com a sua bagagem. A empresa de transporte havia extraviado todos os seus pertences – ele mesmo tinha conferido visualmente que haviam embarcado junto às pesadas caixas de um senhor que usava trapos no lugar de roupas. Começou durante a viagem. O desconforto ia aumentando conforme se sucediam os quilômetros. Um a um e lá ia também a sua imaginação de que alguma coisa estava errada. Depois foi com a sua instalação. Tinha certeza de ter confirmado a reserva da pensão, mas foi com contrariedade que ouviu a velha brandir a sua bengala de encontro a muito perto do seu rosto, dizendo que ali não era um pardieiro, mas sim uma casa de família, portanto não admitiria um hóspede ao acaso, um desconhecido qualquer, sem que lhe fossem enviadas referências comprovando as qualidades do caráter do agraciado. Conseguiu se instalar perto do trabalho, mas isso foi por pura sorte; coisa que não era comum andar a seu lado. Era um ambiente único e pequeno, com uma cama, um guarda-roupas, duas cadeiras e um tanque para fazer a sua higiene, tudo sobre um tapete que já experimentou melhores dias. Fora terminantemente proibido de providenciar ali a sua comida – evitar atrair ratos e suas pestes foi o motivo apresentado, e tinha de se alimentar nas espeluncas que faziam pratos feitos e comerciais a um preço que não correspondia ao valor nutricional da alimentação e nem a sua higiene no preparo. Era isso ou viver de pequenas rações, essas sim, saboreadas quase sempre a noite, após o expediente, no mais próximo do silêncio que conseguia, dentro do seu cubículo cheirando a mofo e a encontros casuais nada amorosos. Falando em trabalho, outro indício de que algum Deus dos infernos ou alguém lhe imputara alguma maldição, destas que se fazem valer em ritual com animais e sangue, muito sangue. Não tinha certeza de quem desagradara com seu modo de ver as coisas da vida ou da morte, mas sabia, tinha certeza, que nem sempre fora assim que as coisas ocorreram na sua órbita.  Tinha sido escalado, primeiramente, antes mesmo de chegar a capital, para ocupar um cargo de liderança no almoxarifado – pelo menos assim entendeu o anuncio que recortou meticulosamente, com sua tesoura de aparar o bigode e pelos do nariz. Não foi o que constatou na primeira entrevista. De superior virou, num segundo, subalterno de um sujeito que nem ao menos sabia qual era a utilidade ou mesmo o significado das palavras “por favor” e “obrigado”. Isso o contrariou e continuava a perturbar os seus sonhos, seus dias e noites, mas não se deu por vencido e optou pela subserviência momentânea. Um dia, seu valor ia sobressair e por fim ao erro de julgamento a que foi submetido. Agora mais isto: tudo que pegava, escapava por entre os dedos. Por mais forte e determinado que segurasse, não havia maneira de sustentá-lo por muito tempo e invariavelmente, o que quer que fosse que estivesse a segurar, encontrava o seu destino final no chão frio e sujo da onde estivesse ele no momento. Foi assim com o doce, com a tesoura, com a caneta, com a carteira, com as moedas… Seria capaz de continuar para sempre com isto? Para sempre é um tempo em que nunca procurava pensar. Passou as mãos dentro da valise com roupas e uma camisa quase velha surgiu, presente de sua mãe, que ele nunca gostou e só usava nas vezes em que a visitava, e foi usada para limpar o doce derramado. Depois praguejou algo mentalmente, vendo que ficou um borrão, uma trilha, um caminho por onde era possível ver o trajeto por onde tentava se desvencilhar da confusão melada. Isso sempre acontecia com ele, pensou mais e mais outra vez na maldição.  Resolveu então pedir ajuda à senhora que alugava o moquifo que chamava de quarto. Dela conseguiu um trapo imundo e um balde com água pela metade, e uma solução de limpeza que cheirava tal qual a lotação das seis e meia da tarde. Nenhum rodo ou vassoura, perguntou. Só conseguiu tirar dela um rugido primal e a informação que a esta hora a despensa estava trancada e ela não ia subir novamente até o quarto e pegar a maldita chave por conta de um desastrado como ele. Se fizesse assim, jamais dormiria de novo. Ainda achou que pôde ver, de relance, o que se pareceu com um riso de escárnio pela sua desgraça, que fez subir o lábio superior, levando com ele o buço de pelos negros e descontinuados da velha desgraçada. Bruxa lazarenta, confidenciou com seus pensamentos e começou a subir forçosa e penosamente os vinte degraus que conduziam até o seu quarto, com a água do balde lhe encharcando as barras da calça, no piso superior. Quando estava na altura do décimo sétimo, virou rapidamente o rosto para trás, pois julgou ouvir um chamado, possivelmente seu nome em uma voz familiar, e depois disso não se lembra, até o momento em que abriu novamente os olhos, de reconhecer mais nada nem ninguém a sua volta.

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