domingo, 15 novembro, 2015

Se eu tenho um diário? mas que pergunta foi essa? 436… qual era mesmo o número… nunca lembro o número.. um chinês?! mas o que a porra do chinês está fazendo? não sei se aguento mais disso…preciso me livrar desse maldito hábito, mas eu gosto do gosto do vermelho… não sou bom em me livrar… Um chinês? mas que diabos! estão por toda a parte agora, falando entre os dentes e parecendo estranhos da primeira vez… fora do espaço, do esquadro… perfume… maldito perfume. perfume bom, bancos de couro… que papo foi aquele de diário? asas, ás vezes asas, ás vezes um céu inteiro, só de sacanagem… acostuma, com quase tudo se acostuma… com a dor, a falta de ar… com a clemência… dá pra ir mais rápido e essa coisa voa no asfalto… dá vontade de rir até… está aberta a temporada de caça aos coelhos… coelhos roxos, vermelhos e azuis, todos mortos pendurados nas cercas brancas e bem comportadas… onde é proibido abrir bem as pernas e mostrar aos estranhos … coelhos filhos da puta… não sabem se comportar e acabam todos no  mesmo ponto… bem em frente e ao lado… coelhos maus, coelhos bons, pouco me importa… pouco me importa o proibido.

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A maçã enterrada vai apodrecer por que o cavalo não consegue alcançá-la

quinta-feira, 7 março, 2013

A maçã enterrada vai apodrecer por que o cavalo não consegue alcançá-la.
Pensava nisso enquanto era penetrada por trás pelo enfermeiro da noite. Antes teve o da manhã e depois o da tarde. Cada um tinha sua preferência. Não ligava. Estava acostumada. Desde os seis era violada. Tudo começou quando o padrasto decidiu que ela já tinha tamanho e peso suficientes, não só para pular corda ou amarelinha, mas pra deitar todas as tardes com ele. Tardes intermináveis aquelas. Tardes de um calor insuportável. Depois foi embora. Saiu pela porta da frente e andou até gastar os chinelos. Quando parou, ficou. Pegou para si um canto, ao lado da igreja, e mendigava. Quando ficou muito suja, o padre lhe deu banho. Quando limpa, o padre ficou surpreso da sua beleza. Deu-lhe roupas novas e motivo pra voltar tarde sim, tarde não. Quando saía da sacristia, olhava para o alto e via os anjos e suas belas e compridas asas brancas. Via os santos todos naquele céu. Via um homem de barba grisalha que estava no centro de todos os anjos e santos. Devia aquele ser o Deus do padre. O dela não. Notou que quando olhava para a imagem do Cristo crucificado, este virava a cabeça para o outro lado. Então voltava para a luz da tarde de cabeça baixa. A primeira surra levou das beatas. Elas tinham inveja daquela mendiga ter mais privilégios que elas todas, que todos os seus pecados. A segunda surra levou da polícia, que não lhe perguntou o nome, só lhe acertou na cabeça e barriga. Sentiu depois disso, da surra, que suas ideias fugiam quando ela precisava delas. A terceira e pior surra levou de um negro que tinha um pau enorme. Enquanto fodia, ele batia a cabeça dela no chão com muita força, dizendo coisas sobre o diabo e sobre a ressurreição que não tinham o menor significado para ela. Desta surra ficou com a cabeça rachada. Depois, uma cicatriz que cruzava da testa à nuca. Então a fala sumiu, as cores desapareceram e seus ouvidos escutavam um resmungo baixo, uma coisa que não desaparecia nem com os olhos para sempre fechados. Tentou colocar a cabeça embaixo da água e ficar lá, mas foi salva por voz e mãos de homem que a trataram bem e a trouxeram para o sanatório. Agora mora aqui. Não sai para o pátio. Não gosta dos outros internos, pois eles não entendem o que se passa com eles, nem com ela. Depois que o enfermeiro acabar e se limpar e depois limpar ela, vai poder voltar a escutar o barulhinho baixo da voz que nada diz, mas que sabe ser de uma criança que nunca viu a luz do sol.


Senhor Perdonccinni

sexta-feira, 15 fevereiro, 2013

Olá. Bom dia. O Senhor é o encarregado pelo prédio?
Sim, pois não. Bom dia. O que deseja?
Vim pelo anuncio do quarto para alugar.
Quarto para alugar?
Sim, no terceiro andar.
Terceiro andar, hum… Deixe-me ver… Sim, terceiro andar, quarto simples para alugar, com banheiro compartilhado. Este anúncio é da parte do senhor Perdonccinni.
Ótimo. Ele está?
Muito bom que ele decidiu alugar o quarto. As coisas para ele não tem sido fáceis depois do que aconteceu com a esposa.
Hum.
Há muito que eles eram casados, mas acho que ela nunca o amou realmente. Dava para perceber que a relação estava se deteriorando, pois eles moram aqui desde que casaram. Este é o primeiro e único imóvel do senhor Perdonccinni, pode acreditar. Eu o conheço desde que passou pela mesma porta que você há quarenta anos atrás. Onde estava? Deixe-me ver… ah, sim, antes ela era uma esposa como qualquer outra, vivia para seu marido e filhos, que nunca tiveram. Não que não tivessem tentado – Me parece que ela não podia ter filhos. Depois, como o passar dos anos, ela foi perdendo a vontade de permanecer ao seu lado. Parou de sair e ficava confinada no apartamento. Quando eu ia, sempre a pedido do senhor Perdonccinni, verificar qualquer problema com o encanamento ou o que quer que o valha, percebia que ela se retirava para o quarto e trancava a porta. Em raros momentos pude vê-la e constatar que não se parecia em nada com o que fora no passado. Ela tinha o cabelo emaranhado e sujo assim como toda a sua aparência parecia suja e gasta – o senhor Perdonccinni ficava constrangido só de saber que eu a tinha visto. Tempos depois ele me pediu ajuda para que pudesse lavá-la de alguma maneira, esforço que se mostrou inútil, pois ela parecia um peso morto, como se fosse um grande pedaço de carne de difícil manuseio. O senhor Perdonccinni estava muito abatido e passou a não parar mais aqui na portaria para nossa habitual conversa – Eu tenho sempre a mão uma garrafa para essas ocasiões, quando algum morador resolve descer e partilhar um pouco da sua existência comigo, sabe? Antes de isso acontecer me confidenciou que a esposa tinha desistido de viver e ele estava desesperado, tentando fazer com que ela voltasse a ter qualquer interesse que fosse pela vida, pois sem ela ele não poderia mais continuar suportando tudo que esses anos fizeram com ele. Bom, teve uma noite que eles saíram para jantar – há tempos ela não preparava mais nem o almoço e nem o jantar para os dois. Não sei como, ele conseguiu que ela vestisse um dos seus vestidos para sair e foram para a casa de massa aqui para cima, umas duas quadras do prédio, sabe? A comida deste restaurante é muito boa e o lugar, apesar de simples, é bastante agradável. Eu lhe indico, caso venha se confirmar a sua permanência aqui no prédio… Mas então, eu estava, deixe-me ver… Ah! Sim, eles foram ao restaurante, ela pediu fetuccinni e ele rigatonne. O sabor dos molhos eu não me recordo, mas foi isso que pediram, pois me lembro do senhor Perdonccinni ter me confidenciado isso posteriormente ao dramático acontecimento. Quando voltaram, por volta das vinte e três horas, voltaram como saíram, em absoluto silêncio e presumo, por conta disso, que o jantar deu-se da mesma e silenciosa maneira. O senhor Perdonccinni foi o único a me cumprimentar, pois a esposa não tirava os olhos de um lugar impossível para qualquer pessoa em sã consciência chegar – Era como um destes zumbis, tão populares hoje em dia -, e então se retirou para o seu apartamento. Ele nunca me falou sobre isso, mas nas vezes, foram poucas, mas existiram, que eu tive a oportunidade de entrar em seu imóvel, por conta de pequenos consertos como mencionei a você anteriormente, percebi que ele passara a dormir na cadeira da sala, em frente à televisão, e não mais no seu quarto ou sua cama. Isso me cortou o coração, pois, como você poderá ver por si só, o senhor Perdonccinni é um bom homem e não era merecedor de tal tratamento por parte da esposa. Ela tinha se desencantado para com ele, mas isso era uma situação inadmissível a meu ver. Bom, nessa mesma noite, ela se levantou, vomitou todo o jantar e se dirigiu para a cozinha. Lá chegando, pegou o picador de gelo na gaveta de talheres e agrediu o próprio corpo um cem número de vezes. O senhor Perdonccinni, que estava dormindo na cadeira da sala, acordou e foi averiguar da onde vinham e o que eram aqueles barulhos surdos. Foi quando encontrou o corpo da esposa caído no chão da cozinha, coberto pelo sangue dela. Ele se desesperou e por um momento não soube ao certo o que fazer. Momentos depois, e que foram cruciais a meu ver, ele ligou para a emergência. Quando eles finalmente chegaram já não havia mais nada a se fazer que voltasse a vida da esposa. Encontraram-na e o senhor Perdonccinni paralisado ao seu lado, grudado ao chão da cozinha pelo sangue da esposa. Isso tudo eu li no boletim policial, que foi publicado na imprensa algum tempo. Acontece que, em minha opinião, não foi bem assim que aconteceu o desfecho trágico. Conhecedor da situação em que se encontrava o casal eu duvido que ela tivesse forças para infringir-se a própria morte. Na minha modesta opinião, o senhor Perdonccinni foi muito sagaz e ardiloso em fraudar o assassinato da própria esposa, que ele via deteriorar-se dia após dia a sua frente. Para mim, foi isso que aconteceu e nada vai mudar a minha opinião, mas veja bem, em respeito a minha amizade pelo senhor Perdonccinni, jamais vou abrir a boca para contar a quem quer que seja a sua tragédia familiar. Jamais. Mas vamos ao que interessa: sua locação, não é mesmo? O Sr. Perdonccinni, como faz todas as manhãs há quarenta e dois anos, foi ao mercado central e deve retornar por volta das dez e meia da manhã. A senhorita pretende aguardá-lo?


Inverno

quarta-feira, 9 janeiro, 2013

O frio ainda não havia chegado com toda a sua força àquelas paragens, mas o céu já se recortava das cores de inverno que todos da região conheciam bem. Um bezerro foi o motivo de todo estardalhaço na madrugada e manhã por parte dos funcionários da fazenda. Diogo e o capataz haviam capturado o fugitivo e agora ele estava ali, de joelhos na terra fria, arrumando as madeiras da cerca por onde o bezerro escapou. Ana estava a cinco metros dele e observava o remendo enquanto indagava Alberto, o capataz sobre assuntos pendentes. Mais nova e única mulher de oito irmãos, também fora a única a sobreviver aos pesados dias da revolução, suas lutas e fome, que ceifaram a maior parte dos homens e mulheres de toda a região e país. Ana gerenciava a fazenda com a força da morte – dos oito irmãos, de seu pai e de sua mãe. Os cadáveres dos Santilhanas a mantinham viva e forte em todas as suas decisões. Mulher de poucas palavras e de beleza indecifrável, Ana nunca fora vista com homem nenhum. Alguns diziam palavras sobre uma maldição – se de algum homem ela se aproximasse e por ele nutrisse algum afeto, este logo conheceria a morte. Enquanto arrumava a cerca, Diogo observava suas luvas velhas e esgarçadas. Aqui e ali o couro dava sinais de fadiga e rompia-se como algodão velho. Precisava de luvas novas, pois este seria um inverno pior que os anteriores. Pior até que todos os antigos invernos que se tem notícia ou lembrança.
Três dias inteiros para que frio começasse a fazer seus estragos e vítimas. No quarto dia, nada vivo se mexia a não ser que estivesse a salvo em algum abrigo para homens ou animais. No décimo, um urso pardo apareceu e resolveu fazer do rebanho de Ana Santilhana seu banquete. Três reses se perderam para sempre. Nem o couro o urso poupou, tamanha sua fome. Na manhã do décimo segundo dia, não tendo nevado nem neste e nem no dia anterior, Alberto, Diogo e Ana, armados de rifles de longo alcance, foram ao encontro do urso. Era fácil seguir a trilha de pegadas e sangue na neve fofa e branca. Todas as marcas levaram os três caçadores a um desfiladeiro conhecido pelas avalanches e por buracos que se abriam na neve, bem embaixo dos pés, e se transformavam em imensos abismos. Desmontaram os três para perder o peso dos cavalos e sua carga e seguiram pé ante pé, atrás da rota deixada pelo urso. Pararam na entrada de uma fenda na neve, possivelmente uma caverna usada pelo urso como abrigo. O cheiro que os recebeu fez Diogo vomitar. Logo que se aprumou, envergonhado, desculpou-se pelo seu estômago fraco – única herança da família desconhecida, amaldiçoava em pensamento. Quinze dias, um mês inteiro, dois meses se passaram da partida dos três e nenhuma notícia, boa ou ruim, irrompia para fora da nevasca que se estendeu pelo restante do inverno. Foram mandados batedores índios, mas até esses voltaram sem notícias, nem dos caçadores, nem do urso, que também desaparecera. Quinze anos se passaram daquele inverno. Hoje as crianças brincam nas sombras que o sol de verão faz na grande figueira e árvores próximas. Brincam de jogar água uma na outra, brincam com cocares índios, com pistolas de cowboy, com brinquedos de madeira. O mais novo tem por volta de três e o mais velho dos quarto irmãos homens, dez. Ana está grávida e desta vez ela espera que venha uma menina, a qual dará o nome de Júlia, o mesmo nome de sua mãe. Sobre aqueles dias na caverna, Ana e Diogo preferem esquecer. Apenas levantaram, no alto de uma colina, um belo memorial de pedras negras ao capataz Alberto e nunca mais colocaram um naco de carne na boca, apesar de ainda manterem um grande rebanho de corte na fazenda.


Ângela

terça-feira, 20 novembro, 2012

Viviam dizendo pra eu sair, me misturar, conhecer pessoas. Não tenho vontade. Gosto do meu silêncio, do meu quase nada com café pra fazer. Depois de muitos “vamos junto”, decidi – vou, mas só porque gosto do autor. Livraria cheia, vinho branco, canapés, pessoas com cara de muitos livros e viagens e uma vida interessantíssima me empurraram pra uma sala anexa com uns sofazinhos engraçados e desconfortáveis – desing. Ela: blusa leve, tom pastel provocadoramente transparente, jeans não muito colado, mas na medida certa. A taça de vinho ganhava outro significado na mão dela, uma importância quase sagrada e eu ficaria feliz em ser entregue a seus pés em sacrifício. Nunca tive coragem pra falar com uma mulher assim. Pra meu desespero, minha amiga notou o meu interesse – ia começar a lenga lenga, “Vai lá, fala com ela” e “Se você não for eu vou e falo com ela pra você”. Não tem coisa pior que isso, a pressão. Tentei dizer que nem estava tão interessado assim. Que ela era bonita, mas deveria ser casada ou noiva ou ter um namorado superimportante lutador de jiu-jitsu ou coisa parecida. Mulheres assim não ficam sozinhas. Eu sei que não. Com o saco bem cheio, graças a minha amiga, decidi ir até ela. Quando estava quase lá, ela se virou pra beijar uma loura perua, que cheirava perfume a quilômetros de distância – sou alérgico. Passei batido pra poder espirrar bem longe dela. Imagine a cena: um oi tentando soar interessante e logo em seguida uma catarrada lançada em direção ao rosto perfeito dela. Nem a pau. Direto pro banheiro. Quando voltei notei que ela estava na fila do autógrafo. Peguei o primeiro papel que achei e rabisquei na minha melhor caligrafia: “Quando a gente está com pressa e encontra alguém interessante, o que se faz além de deixar o telefone? Pois bem, 223-5137. Edson”. Sorrateiramente dei um jeito de enfiar no livro que calculei, pela posição na fila, ser o dela. Sorte lançada, saí confiante, imaginando a reação dela ao encontrar o bilhete. Será que ia ficar interessada? Será que, apesar do namorado, ia ligar? Mulheres são curiosas. Cinco dias depois, Ângela ligou. Ângela era o seu nome. Ângela de anjo. Ângela e eu não consegui trabalhar direito a semana. Ângela e eu não consegui dormir a noite de quinta. Ângela e eu decidi que precisava de um regime experimentando minhas roupas – decidi também que precisava de roupas novas, que combinassem com Ângela. Marcamos num restaurante japonês. Não gosto muito de comida crua, mas Ângela disse que gostava. Cheguei pontualmente no horário. Nossa mesa era boa, não era perfeita, mas dava pra conversar num tom não muito alto. Dava pra se conhecer, com certeza. Fui umas três vezes ao banheiro, tanto por vontade de mijar – quando fico ansioso mijo toda hora, – como pra conferir se minha camisa não estava muito amassada. Escolhi a vermelha, apesar da Márcia, minha amiga, falar que era muito “cheguei”. O que Márcia entende de mulher? Ela se veste como uma hippie, que mesmo na época do movimento se sentiria deslocada. Meu cabelo estava perfeito e o vermelho da camisa ficava legal sim com o meu bronzeado. Quando voltei pra mesa tinha alguém sentado no lugar da Ângela, mas não era ela. Era uma mulher, mas dava pra ver que muito acima dos no máximo 49 quilos que Ângela parecia ter. Era uma mulher, mas mesmo de costas não tinha um décimo da beleza e do charme que Ângela tinha. Então me ocorreu uma coisa: e se essa fosse a Ângela? E se eu coloquei o bilhete no livro errado? Sim, essa era a Ângela. Tudo se explicava: ela demorou cinco dias pra ligar porque não acreditou que alguém realmente fosse se interessar por ela e seus 120 quilos. Comida japonesa? Sei. Ângela, ou qualquer que seja o verdadeiro nome da mulher da minha vida, não iria titubear tanto. Tudo se explicava diante dos meus olhos e eu não queria acreditar. O que fazer agora? Liguei pra Márcia e pedi pra ela vir ao restaurante. Quando ela chegou, fiz de conta que ela era a pessoa por quem eu esperava e saí procurando deixar isso bem claro. Aos poucos fui esquecendo Ângela. Aos poucos fui aceitando que ela não era mulher pra mim, um cara que não vai a lugares interessantes, que não tem amigos interessantes, que não entende nada de vinhos nem de sofás. Não sei se cheguei a ficar triste, mas gostaria de saber o que ela achou de mim.


Cassino

domingo, 18 novembro, 2012

Um castelo de cartas – Tarô. Um sonho. As cartas mostravam isso, a madeira, a cozinha… Maria fritava o peixe, fazia a salada de batatas pensando em azulejos brancos na cozinha e banheiros, iguais aos das casas em que trabalhou. Maria sabia que bastava se esforçar que conseguiria e um fio de felicidade transparecia em seu rosto. Chacrinha buzinou mais um calouro. Uma olhadela entre a panela de pirão e o peixe fritando, Maria se divertia.  Márcio suava frio no corredor da estação de TV. Tinha sido escolhido e iria cantar Fábio Júnior. Márcio sabia que sua chance tinha chegado – A roda da fortuna. Ele cantava muito bem aquela música, Enrosca. Melhor até que Fábio Júnior. Sairia dali consagrado e compraria um medalhão de ouro 24 quilates com a imagem de Jesus crucificado. Também daria uma casa para sua mãe – Ela sempre sonhou com isso. Ele, em ser artista de TV.


Passional

domingo, 18 novembro, 2012

Eu deveria mesmo comprar uma arma. Setenta e cinco por centos das pessoas que tem olhos claros são assaltadas no meio da tarde. Tenho olhos castanhos. Sou assaltado em qualquer horário. Cheguei à conclusão que não tenho sorte. O café esfriou e estou tentando parar de fumar – Eu consigo, mas não estou me esforçando. Sento num dos bancos da praça. Pombos e mais pombos. Não odeio pombos, não odeio nada muito, além, claro, de você. Como você consegue sorrir assim, mostrando todos os dentes? Quinze horas em ponto. Será que as estatísticas funcionam mesmo? Então nesse exato momento pessoas de olhos claros estão sendo assaltadas. Será que eles, os assaltantes, prestam mesmo atenção à cor dos olhos? Balela. Derramei o café frio no jornal. Merda. Isso sempre acontece quando fico nervoso. Derrubo ou quebro tudo que tenho a mão. Uma dor aguda começa na base da minha cabeça. Meu médico receitou uns comprimidinhos azuis. Achei-os interessantes. Mandei analisar e eram de farinha. Só isso, farinha. Filho da puta. Pior que a dor passava. Ainda os tenho comigo, mas me sinto um idiota em usá-los. Coloquei um debaixo da língua. Ansiedade. Olho para minhas mãos e sinto pena de mim mesmo. Eu roo as unhas. Um péssimo hábito, dizia meu professor de chinês. Outro filho da puta. Nunca aprendi uma palavra do que ele ensinou. Na verdade, eu ia ao curso pra te conhecer. Conheci. Não sei se fiz bom negócio. Pro inferno o chinês e os chineses, a China toda.  Quinze e trinta e cinco. Cinco minutos passados. Sou pontual. Detesto atrasos. Quando eu era supervisor na minha seção, demitia muito por atraso. Depois demitia porque comecei a ficar careca. Quem é que respeita careca? Depois de mandar uns quinze embora, me respeitavam. Na verdade não me respeitavam, mas morriam de medo de perder o emprego. Você sabe o que eu penso sobre atrasos, mesmo assim ignora. Que diabos. Um calor insuportável. A moça do tempo disse que iria chover. Eu se fosse o patrão dela, demitia. Não acerta uma. Ele deve é comer aquela gostosa, por isso não demite. Já reparou como a moça do tempo sempre é uma branquela gostosa? Aliás, não me lembro de ter moça do tempo negra. Perguntam-me as horas: Quinze e quarenta e cinco – Devolvo. Tenho raiva de quem não sabe a diferença entre manhã, tarde e noite e sempre informa as horas com um “é três e quarenta”. Ignorante. São quinze e quarenta. Três e quarenta é de madrugada, e não de tarde, imbecil. Se bem que se colocar a informação que é de tarde… Mesmo assim é um imbecil. Por que mulher velha tem sempre um poodle branco? Odeio cachorro. Mija em tudo. Odeio velhas também. Olham com aquela cara de que conhecem tuas intenções. Bando de piranhas aposentadas, isso que elas são. Já os poodles… Mas onde você se meteu? Depois vem com o papo de que o trânsito estava horrível, que o estacionamento do shopping estava horrível, que o seu cabelo estava horrível e por isso parou para cortar. Por que sempre ouço desculpas? Ontem foi da empregada. Eu adorava aquela blusa amarela. Incompetente. Só não demito porque está a três gerações na família e minha mãe iria ter um ataque e minha mulher é capaz de ir embora junto com a empregada. Quando fico nervoso, me dá uma coceira pelo corpo todo. A dor de cabeça passou, mas agora essa coceira… Ah! Olha só! A pulseirinha que você me deu está descascando. Adoro essa pulseirinha. Também gostei de você ter mandado gravar o seu nome nela. Só uso escondido. Mas o metal não é prata, como você tinha me dito. É bem vagabundo, por sinal. É sua cara com seu nome gravado nela. Isso me fez lembrar que você me pediu dez mil pra pagar uma cirurgia no nariz e sumiu uma semana com aquela puta argentina. Realmente eu te odeio, mas odeio te odiar. Amanhã compro aquela arma e você vai ver quem não tem coragem aqui.


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