sábado, 28 setembro, 2013

Se você ainda está vivo, eu quero que você vá pro meio do inferno, seu corno!

Desligo o telefone. O que aconteceu com aquela antiga e cordial mensagem que dizia pra deixar o nome e o fone depois do sinal? Tudo é muito moderno e pessoal hoje em dia. Depois de pensar nisso, descubro que estou sem moedas pra ligar de novo. Perdi minha carteira com tudo dentro e quando digo tudo dentro é isso mesmo que estou querendo dizer. Abro a porta da cabine de telefone. Aqui fora o dia parece pior ainda do que através da porra do vidro riscado e pichado com toda espécie de sacanagens. Bairro de merda – penso enquanto coloco um Marlboro na boca. Não encontro o isqueiro. Isso sim é um grande problema. Sei mais ou menos como sair desta porcaria de lugar, mas meus joelhos não parecem querer ajudar e meus pés doem uma dor que só me lembro de sentir quando fui ajudar meu pai com o piano – sim, tínhamos um piano, mas o velho entrou uma noite, quando todos, menos eu, dormiam e levou ele embora. Também levou a vida da minha mãe, mas isso é outra história. Eu e minha maldita insônia. Então, acontece que na frente de casa tinha uma escadinha com dois ou três degraus. Eu tropecei num deles e a merda do piano esmagou os meus dedos do pé direito. Desde então eu não confio nada neles. Caminho mancando até a esquina à direita. Um sujeito enorme, com uma quantidade inacreditável de pelos no corpo esta ali, encostado no muro de tijolos, fumando tranquilamente seu cigarro.  Ei Chubaca, tem fogo? Tento parecer o mais cordial possível. O sujeito me olha de cima a baixo, se concentra nos meus pés e diz: que porra aconteceu com o teu pé, apontando pro direito. É uma longa história, digo, e repito o lance do fogo. O grandão saca um isqueiro, desses antigos que parecem um lança-chamas e funcionam com querosene, que, além de acender meu cigarro, chamusca ele todo de preto.  Que merda você pensa que tá fazendo, digo enquanto arremesso o cigarro arruinado e pegando fogo pro outro lado da parede de tijolos. Ele fica ali, me olhando com se eu falasse alguma língua estranha ou sei lá o que ele tava pensando. Você não é daqui, não é? Puxa! Brilhante! Então, como faço pra desaparecer dessa merda de lugar? Como assim? Assim mesmo, sumir no ar, desmaterializar ou qualquer coisa desse tipo. Cara, você deve tá muito na onda. O que ele tava dizendo? Olha, você tem umas moedas? As minhas acabaram. E se eu tiver?  – disse Chubaca. Bom, você poderia enfiar todas elas no seu cu peludo, mas só pensei nisso e falei: que tal me arranjar umas cinco? Fico te devendo essa. Me arrastei até a cabine e abri a porta e então percebi que tinha uma espécie de meleca grudada no trinco e que que agora se espalhava pela minha mão. Maldição! Um cara vira dois segundos pro lado e um tarado esguicha porra em toda a maçaneta. Mas que espécie de lugar é esse? Mundo de merda. Limpo o melhor que posso a mão na calça do terno – mas por que estou de terno? Enfio as moedas na aberturinha e escuto o som delas caindo no abismo dentro do aparelho de telefone para nunca mais voltarem. De volta só um zumbido. Mas o que foi isso? Cadê a linha? Dou uns três murros no aparelho, mas percebo que ele é duro na queda. Que provavelmente caras bem mais fortes que eu não tiveram o menor sucesso com esse filho da puta. Não é possível, falo levantando bem o queixo na direção de Chubaca. Ele sempre faz isso. Depois de cada ligação, engole as moedas, disse o peludo. É um filho da puta. É o que eu sempre digo. E agora? O que eu vou fazer. Bom, você ainda me deve cinquenta cents. Você tá falando sério? Você mesmo viu que o telefone me sacaneou. Eu não tenho nada com isso. Negócio é negócio. Por um instante vi que aquele mamute poderia sim matar por cinquenta cents. Olhe, vamos ser razoáveis, tá certo, eu devo os cinquenta cents, mas quero mais crédito. Você quem manda. Certo: duzentas pratas. Aí eu vou precisar de garantias.  Tá de brincadeira? Que garantias? Que você vai me pagar. Mas eu pago, olhe, eu tenho dinheiro. Então não precisa do meu. Chubaca virou e saiu andando na direção contrária a que eu tinha imaginado. Ponto pra ele. Ei ei ei, ok. O que pode ser? Os dois grande olhos bovinos me encaram, de novo de cima para baixo. Esses sapatos? São caros? Tá brincando? Esses sapatos são italianos, sem chance. E o relógio? Olho pro relógio e percebo que tá quebrado. Tá quebrado! O filha da puta do relógio tá quebrado! Você sabe quanto me custou esse relógio? E agora tá arruinado! Então você não tem nada. Não não, peraí. O relógio mais o cinto. É italiano também. Valem uns quinhentos mangos. O relógio tá quebrado. Tá, mas só eu e você sabemos disso. Eu devo ter emagrecido uns cinco quilos nesse pesadelo. Percebi quando a minha calça quase parou nos tornozelos. Lá se foi meu rolex de titânio e meu cinto de couro italiano. Te dou cinquenta por tudo. Olhei pra pata do Chubaca esticada com duas notas de vinte. Como assim? Eu falei duzentos, e aí só tem quarenta? Tempos difíceis. Olha só: vai à merda. Devolve meu cinto e meu relógio. Sem chance. Trinta. Vi que era melhor pegar antes que fosse vinte e depois dez. você é um belo espécime, não é mesmo, falei acentuando as palavras pra dar o tom do nojo e do desprezo que eu tava sentindo por ele naquele momento, mas duvido que ele tenha sacado qualquer coisa. Sou um sobrevivente. Certo, certo… onde posso trocar essa merreca por moedas. Se quiser eu troco. Como é que é? Se quiser eu troco. Quer dizer que este tempo todo você tava recheado de moedas e não me falou porra nenhuma? Você perguntou? Dei a grana e saí sem olhar pra trás. Quando cheguei no telefone, fiz uma conta rápida e descobri que tinha sido roubado em vinte mangos. Qual era o problema daquele cara? Escuta aqui: você me deu só dez dos trinta paus. É o ágio, e além do mais, por que você quer trinta paus em moedas? Vai ligar pra Tóquio. Certo, certo, aquele filho da puta ia ter o dele, mais cedo ou mais tarde, mas ia sim, prometi pra mim mesmo.  Coloquei moedas suficientes pra uma ligação de cinco minutos e ouvi o telefone chamando, atendendo e…  a voz dela e a mensagem na secretária, a mesma mensagem fazendo alusão ao inferno ou o que quer que seja com chifres que estivesse passando na cabeça daquela cadela. Atende esta merda, atende agora, sua puta desgraçada! Atende a porra do telefone senão eu juro que vou até aí e enfio essa buceta no seu rabo! Enquanto perdia o controle de tudo que me cercava e de mim mesmo, batia o fone no aparelho até que consegui, e não faço a mínima ideia de como, separar um do outro. Nisso, Chubaca entrou com tudo pela porta estreita da cabine e me pegou pelo pescoço. Seu filho da puta! Quer acabar com o meu negócio? Na hora o ar me foi retirado dos dois pulmões ao mesmo tempo e não entendi merda nenhuma e nem em que língua ele tava falando. Depois, na calçada, o ar foi voltando devagar. Mas o que foi isso? Você quase me arrancou a cabeça, seu retardado. Você destruiu meu negócio e vai ter de pagar por isso. Mas do que é que você está falando, homem? Da onde estava, podia ver os pelos saindo das orelhas e nariz daquele animal enraivecido. O telefone. Você acabou com ele. O que tem a ver o telefone com a minha cabeça? Agora eles vão trocar a porra do aparelho. Saquei tudo. Filha da puta. E eu caí como um trouxa. Você é o pior dos vermes, Chubaca. Para de me chamar assim ou eu arranco tuas pernas. Mesmo aleijado, você vai continuar sendo o pior entre eles. Fui me apoiar pra levantar e segurei uma coisa redonda, cilíndrica na verdade, que estava entre a calçada e a rua, um cano! Nisso, o que aconteceu foi muito rápido, mas puder ver um pedaço considerável dos pelos da cabeça do grandão serem arremessados a uns cinco metros da onde caiu o resto dele. Pude também sentir, depois disso, uma dor lancinante no pulso direito. Provavelmente estava quebrado. Merda! Já não chega o pé, agora o pulso. Escuto um barulhinho, um tipo de marimba de madeira ou alguma coisa do gênero, vindo do corpo desfalecido do Chubaca e, sinceramente, espero que ele tenha mesmo ido pra puta que o pariu. Olha só! Um celular novinho em folha. Aperto os botões e a voz diz: disque taxi. Certo, você consegue rastrear onde estou pela ligação? Sim, senhor. Então venha rápido. Desligo o aparelho, vou até o que restou do Chubaca e pego o meu relógio quebrado e meu cinto, o cano e mais uns oitocentos paus que o babaca tinha com ele. Agora aquela vadia vai ver com quem se meteu.

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para Neil Young… somos o que não parecemos ser

domingo, 18 agosto, 2013

E o velho homem ginga em cima do palco, empunhando a velha companheira, aquela que sempre esteve ao seu lado. O velho homem canta sobre dias bons e ruins, canta o amor que ficou na memória, onde ficam os amores que não tiveram fim. Dentro do velho homem permanece o que ele sempre foi, a criança velha, jovem velho. Era de se esperar que ele ficasse a vontade com seu corpo velho, mas não. Lentamente ele se tornou a criança e toda sua vitalidade e curiosidade, o jovem e suas inquietações e desilusões. Não precisa mais do velho. Passou a vida tentando esquecer que era o velho quem existia o tempo todo, bem lá no fundo, onde a maioria das pessoas não percebem, não podem ver.  


A cidade do bluesman desaparecido

quinta-feira, 15 agosto, 2013

O ar da mercearia se enchia de poeira fina, daquela que entra até os ossos, a cada carro que passava, de hora em hora, na estrada. Era o máximo que eu podia esperar da longa tarde neste lugar perto do inferno.  O zumbido do refrigerador de carne, que antes dava uma agonia que rastejava por horas a fio, agora era só mais uma das coisas do lugar. Moscas, várias, de todos os tipos, voavam e pousavam em tudo, de dentro dos olhos até onde mais estivesse descoberto. Foi na tentativa de acabar com algumas delas que derrubei um quadro velho. Quando caiu se desprendeu da moldura e outro quadro saiu lá de dentro. Tinha o rosto de um homem negro e desfigurado pelo tempo e gordura do lugar. Também tinha data e local escritos: era um cartaz de show. Não dava mais pra ler o nome, nem do homem e nem do lugar da apresentação. Fiquei ali olhando um bom tempo, tentando juntar mentalmente letras que fizessem sentido nos espaços. Não consegui nada. Neste intervalo, vendi dois queijos coalho e um pedaço de fumo. Odeio quem masca fumo. Dá um trabalho desgraçado tirar as manchas de cuspe do chão. Decidi montar o quadro novamente, só com o cartaz, ao invés daquele pássaro estúpido, e coloquei no lugar de antes. Depois de umas semanas, meu patrão me chamou e perguntou o que tinha acontecido com o pássaro. Voou, falei dando as costas. Nisso ele me disse que fazia tempo que não via este cartaz. Que ainda podia escutar o barulho das pessoas e suas vozes no lugar, sentir o ar pesado pela fumaça de charuto. Sentir o cheiro do uísque de alambique e a garganta rasgando em sua jornada de encontro ao estômago. Disse que era preciso afrouxar a gravata depois da primeira dose, se ainda quisesse ficar em pé e respirando. Me apoiei no balcão bem na sua frente e fiquei ouvindo enquanto ele parecia cantar enquanto contava os fatos que tinha visto. Tem uma memória bem viva este desgraçado. Em sua estória eu podia sentir o tecido enquanto esbarrava no vestido das mulheres rumo ao balcão. Podia sentir o peso do chapéu enquanto colocava a aba no lugar certo. Mas como era o nome do negro com a guitarra no cartaz, perguntei. Ele me olhou sério, fez um grande silêncio e me olhando nos olhos com seus grandes olhos negros de negro disse que não se lembrava. Disse que tinha algo a ver com o cartaz do pássaro que estava na frente e que ele queria ver de volta no lugar.


é daqui a pouco…

sábado, 3 agosto, 2013

é daqui a pouco...


Texto apresentação do Livro do Leo

quinta-feira, 1 agosto, 2013

Fiz esse texto a pedido do Leo, o Leonardo Vinhas, para a apresentação do Livro  “O Estuprador Deprimido e Outras Pessoas Comuns”.  Leo é meu amigo e generoso que é, colocou lá o texto. Eu não lembrava – tenho uma memória maravilhosa, mas aí o Carlinhos (Carlos Remontti), baixista do La Carne, me lembrou disso e de outras coisas enquanto eu escrevia o texto.  Tá ele (o texto) aqui embaixo. Obrigado Leo. 

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Curitiba, 2005, se não me engano, uma sombra ronda a vizinhança onde desavisados perambulam em troca de trocados e um pouco de diversão. Na Curitiba de 2005, uma série de enganos, equívocos e incertezas me impeliam para frente, mas onde é para frente? Nessa terra, Curitiba, existe e sempre existiu uma névoa pálida que se aproveita da ilusão e de cada um de nós para criar o engano, o engodo e o fantástico, e nunca se tem certeza da direção a seguir. Foi nessa atmosfera que conheci Leonardo Vinhas, o Leo. Ele apareceu em Curitiba com uma mochila e algumas garrafas de vinho – Leonardo, que eu apenas conhecia pela internet, de textos que ele publicou e eu, desavisado, li, bem ali na minha frente, saído de um ônibus Expresso, também tentando, em meio a sua neblina pessoal, acertar a direção da vida em todos os sentidos. Leonardo é um guri talentoso e inconformado de Taubaté, interior de São Paulo. Taubaté diz alguma coisa sobre Leo? Deve dizer. Pode ser isso, o lugar, a família, os amigos e tudo que cerca, prende, sufoca ou liberta fizeram Leonardo vir para Curitiba. Têm pessoas que procuram um bom trabalho. Têm pessoas que, com um bom trabalho, escolhem uma boa mulher, casam e tem um belo par de filhos. Têm pessoas que, mesmo com uma bela mulher, um excelente trabalho e duas criaturinhas para trocar fraldas, amanhecem penduradas, sem vida, na lavanderia, ou colidem velozmente o carro de encontro a um desses caminhões enormes. Era uma vida perfeita, não era? Mas o que levou a isso? A perfeição? Existe perfeição? Existe perfeição no amor, no ódio? E o contrário da perfeição nos leva a acreditar em quê? Só acredito em uma coisa: não existe ninguém, além de nós mesmos, para nos tirar desta confusão. Nisso, eu e Leo também somos parceiros. Quando chegou em Curitiba, poderia até estar decidido a encontrar algum conforto, alguma paz ou uma rota de fuga em espiral que pelo menos o tirasse do meio do nevoeiro. Se ele encontrou? Encontrou a certeza que não é possível escapar ou fugir de nós mesmos, mas que é preciso fazer alguma coisa, mover pernas e braços, chacoalhar a cabeça embaixo de bastante água fria, rasgar mais a pele e costurar, qualquer coisa que seja para poder seguir adiante. Isso é bom? Bom, ainda estamos vivos, e isso importa de alguma maneira. Para quem? Para quem, como nós, sabe que a vida é cheia de percalços, de sentimentos contraditórios, de coisas boas e não tão boas, de quedas com direito a olho roxo e alguns ossos quebrados, que a ressaca vem junto com insatisfações em meio a algum conforto pela tentativa. Nos textos a que fui apresentado, conheci o passado, o desconforto da inadequação, do sentimento de estar no lugar errado, da vontade de crer em alguma coisa mesmo que não seja humana, da necessidade de compartilhar histórias de vida, de sentar e simplesmente tomar cerveja olhando o vai e vem de pessoas ocupadas com elas mesmas. Vi, de certa forma, a felicidade caminhando despretensiosa até o próximo quarteirão. Vi a infância no colégio, a primeira namorada, os primeiros amigos e desafetos. Vi a revista de mulher pelada escondida estrategicamente para os momentos de absoluto tédio e solidão, quando só o tesão pode ter a manha de mostrar que você ainda está vivo. Vi o quanto poderia ter dado em grande cagada aquela ideia fantástica numa chácara isolada, onde todos tomavam uma merda qualquer, com o pretexto de conseguir alguma coisa a mais de si mesmos, mas que no fundo era só mais uma desculpa para trepar com as garotas mais legais da cidade. Vi o desespero de um pai, de uma mãe, conscientes de que não tem volta, que aquela criança bem cuidada, amada, de olhos limpos e tristes não está mais por perto. Vi o amor chegar e ir embora. Vi o quanto isso deixou marcas. Acontece que me vi em pedaços, em fragmentos e em textos inteiros, em coisas que gostaria de deixar para lá, mas sei que não é possível. Somos assim, inteiros e imperfeitos, e isso deveria bastar. Por não bastar, continuamos aqui, perturbando e perturbados, quer fazendo ficção ou não, mas ainda mijando em muros e postes pela cidade, rindo da esperança que ficou sozinha na mesa de boteco com a conta pra pagar. O fato é que não existe mais névoa alguma sobre a terra que não consigamos andar através, olhos fechados ou abertos, tanto faz. Não existem mais sonhos ou esperanças, mas isso não é de todo ruim. Quem consegue calar o passado? Tentamos dia após dia. Talvez por isso tenhamos nos transformado em nós mesmos. É disso que Leo está falando, desse lento processo de montar e desmontar o quebra-cabeça da vida. Se ele tem um plano? Talvez.

 


Pra onde foi todo o ar que respiro?

quinta-feira, 25 julho, 2013

Nunca se sabe onde as víboras se escondem até elas picarem, mas aí já é tarde demais.
Para Leo Vinhas, um grande amigo.

Quando passamos as pequenas colinas ao norte, um submarino apareceu de repente, vindo sabe-se lá de onde, no meio do pequeno deserto. Saiu de dentro da terra. Foi o terremoto. Essas terras já foram um pouco de tudo que existe no mundo – Sancho diz. Se eu não estivesse vendo com meus próprios olhos, jamais acreditaria. Estava ali um submarino da segunda guerra mundial aos pedaços, enferrujando no meio do deserto. Desmontamos. Eu tinha que olhar aquilo de perto. É bem velho, como o senhor pode ver – Sancho lia meus olhos. Era verdade. Dava pra ver o que sobrou do número, da classe do submarino e da suástica. Subi por uma escada torta e enferrujada que dava pra abertura da escotilha. Olhei em direção ao sul. Parecia que uma tempestade se formava no vale. Ia demorar e talvez nem nos alcançasse. Vai chover, gritei pra Sancho, que estava tendo problemas com os cavalos. Ele não ouviu. Olhei pela abertura escura, que descia direto na vertical para o interior do submarino. Estiquei a minha perna esquerda em direção à escuridão. Meu pé tocou em alguma coisa que parecia aguentar o meu peso. A perna direita encontrou o degrau, ou onde quer que esteja eu apoiado, sem dificuldade. Me abaixei até ter certeza que havia passado por inteiro pela escotilha. Foi quando ouvi um estalo, um grande estalo de metal se partindo e fui lançado direto pro fundo da escuridão. Meu ouvido ainda zumbia com a pancada de todo o meu corpo de encontro com o que parecia ser o chão da embarcação. A pesar disso pude identificar a voz de Sancho ecoando dentro da escuridão, falando qualquer coisa, não sei se pra mim ou com os cavalos. Levantei procurando ter cuidado, tentando evitar outro acidente. Dei dois passos em direção à luz que entrava pela abertura da escotilha e senti uma agulhada forte no tornozelo. Aquilo queimou de verdade. Era como ferro em brasa atravessando a pele. Dei um grito e procurei me segurar em alguma coisa, mas não encontrei nada por perto. Caí outra vez e o terror me acompanhou. Senti outra agulhada tão forte quanto a primeira em meu braço direito e depois outra e mais outra. Foram umas cinco ou seis antes que eu conseguisse recuar. Mas o que era aquilo? Gritei por Sancho e eis que uma corda despencou lá de cima. Dei duas voltas completas ao redor da minha cintura e fui ajudando como pude até sair por completo daquele buraco. Quando cheguei à luz, vi com felicidade o rosto suado de Sancho, mas não consegui entender o que ele falava em seu desespero. Logo depois uma febre como nunca antes conheci dominou meu corpo. Olhei para o mesmo sul e tudo parecia estar ora emaranhado, ora se dissipando, se transformando em grandes nuvens negras. Uma névoa se instalou ao meu redor. Mal pude me fixar em Sancho até que tudo o que me cercava desapareceu dos meus olhos.


sexta-feira, 19 julho, 2013

Quando eu comecei a trabalhar com cozinha, conheci o Cigano, um puta cozinheiro. Trabalhamos juntos no bingo, o Sun Red. A gente fazia o turno da tarde e ia madrugada adentro. Depois de todo o trabalho a gente descia a pé da Praça Espanha até a Praça Tiradentes. Então a gente sentava numa birosquinha e ficava tomando cerveja até os ônibus voltarem a circular e a gente poder ir pra casa. Uma vez a gente estava ali, bebendo e chegou um povo com uma porrada de sacos de lixo, cheios de pó e crack. A gente, óbvio, não sabia, mas desconfiou e, como bons curitibanos que somos, fizemos de conta que não era com a gente. Tomamos uma puta geral da Rota juntos. Lembro a que a gente dava risada e falava um pro outro – a porra toda bem debaixo do nosso nariz e a gente bebendo cerveja… claro que o comandante não gostou, mas quando soube o que a gente fazia da vida – não sei por que porra eu andava com a minha carteira de trabalho no bolso – soltou um “ são dois fodidos, nem enquadra esses bostas”. Grande Cigano. Lembrei de tudo hoje e espero que você esteja bem aonde você foi morar. O Cigano se encheu da vida da cidade e foi pro meio do mato criar galinhas, patos e cuidar da sua horta. Eu guardava a última mensagem dele no meu celular. Nunca apaguei. Só perdi, pois roubaram meu telefone. Era mais ou menos assim: irmão, to indo embora. Vou criar galinhas e plantar aquela horta que te falei. Cansei da cidade e de tudo nela. Deixo um abração pra ti. Não ligue, pois não vou atender. Depois desta mensagem vou jogar o celular fora. Abração, Cigano.


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