A cidade do bluesman desaparecido


O ar da mercearia se enchia de poeira fina, daquela que entra até os ossos, a cada carro que passava, de hora em hora, na estrada. Era o máximo que eu podia esperar da longa tarde neste lugar perto do inferno.  O zumbido do refrigerador de carne, que antes dava uma agonia que rastejava por horas a fio, agora era só mais uma das coisas do lugar. Moscas, várias, de todos os tipos, voavam e pousavam em tudo, de dentro dos olhos até onde mais estivesse descoberto. Foi na tentativa de acabar com algumas delas que derrubei um quadro velho. Quando caiu se desprendeu da moldura e outro quadro saiu lá de dentro. Tinha o rosto de um homem negro e desfigurado pelo tempo e gordura do lugar. Também tinha data e local escritos: era um cartaz de show. Não dava mais pra ler o nome, nem do homem e nem do lugar da apresentação. Fiquei ali olhando um bom tempo, tentando juntar mentalmente letras que fizessem sentido nos espaços. Não consegui nada. Neste intervalo, vendi dois queijos coalho e um pedaço de fumo. Odeio quem masca fumo. Dá um trabalho desgraçado tirar as manchas de cuspe do chão. Decidi montar o quadro novamente, só com o cartaz, ao invés daquele pássaro estúpido, e coloquei no lugar de antes. Depois de umas semanas, meu patrão me chamou e perguntou o que tinha acontecido com o pássaro. Voou, falei dando as costas. Nisso ele me disse que fazia tempo que não via este cartaz. Que ainda podia escutar o barulho das pessoas e suas vozes no lugar, sentir o ar pesado pela fumaça de charuto. Sentir o cheiro do uísque de alambique e a garganta rasgando em sua jornada de encontro ao estômago. Disse que era preciso afrouxar a gravata depois da primeira dose, se ainda quisesse ficar em pé e respirando. Me apoiei no balcão bem na sua frente e fiquei ouvindo enquanto ele parecia cantar enquanto contava os fatos que tinha visto. Tem uma memória bem viva este desgraçado. Em sua estória eu podia sentir o tecido enquanto esbarrava no vestido das mulheres rumo ao balcão. Podia sentir o peso do chapéu enquanto colocava a aba no lugar certo. Mas como era o nome do negro com a guitarra no cartaz, perguntei. Ele me olhou sério, fez um grande silêncio e me olhando nos olhos com seus grandes olhos negros de negro disse que não se lembrava. Disse que tinha algo a ver com o cartaz do pássaro que estava na frente e que ele queria ver de volta no lugar.

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