Texto apresentação do Livro do Leo


Fiz esse texto a pedido do Leo, o Leonardo Vinhas, para a apresentação do Livro  “O Estuprador Deprimido e Outras Pessoas Comuns”.  Leo é meu amigo e generoso que é, colocou lá o texto. Eu não lembrava – tenho uma memória maravilhosa, mas aí o Carlinhos (Carlos Remontti), baixista do La Carne, me lembrou disso e de outras coisas enquanto eu escrevia o texto.  Tá ele (o texto) aqui embaixo. Obrigado Leo. 

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Curitiba, 2005, se não me engano, uma sombra ronda a vizinhança onde desavisados perambulam em troca de trocados e um pouco de diversão. Na Curitiba de 2005, uma série de enganos, equívocos e incertezas me impeliam para frente, mas onde é para frente? Nessa terra, Curitiba, existe e sempre existiu uma névoa pálida que se aproveita da ilusão e de cada um de nós para criar o engano, o engodo e o fantástico, e nunca se tem certeza da direção a seguir. Foi nessa atmosfera que conheci Leonardo Vinhas, o Leo. Ele apareceu em Curitiba com uma mochila e algumas garrafas de vinho – Leonardo, que eu apenas conhecia pela internet, de textos que ele publicou e eu, desavisado, li, bem ali na minha frente, saído de um ônibus Expresso, também tentando, em meio a sua neblina pessoal, acertar a direção da vida em todos os sentidos. Leonardo é um guri talentoso e inconformado de Taubaté, interior de São Paulo. Taubaté diz alguma coisa sobre Leo? Deve dizer. Pode ser isso, o lugar, a família, os amigos e tudo que cerca, prende, sufoca ou liberta fizeram Leonardo vir para Curitiba. Têm pessoas que procuram um bom trabalho. Têm pessoas que, com um bom trabalho, escolhem uma boa mulher, casam e tem um belo par de filhos. Têm pessoas que, mesmo com uma bela mulher, um excelente trabalho e duas criaturinhas para trocar fraldas, amanhecem penduradas, sem vida, na lavanderia, ou colidem velozmente o carro de encontro a um desses caminhões enormes. Era uma vida perfeita, não era? Mas o que levou a isso? A perfeição? Existe perfeição? Existe perfeição no amor, no ódio? E o contrário da perfeição nos leva a acreditar em quê? Só acredito em uma coisa: não existe ninguém, além de nós mesmos, para nos tirar desta confusão. Nisso, eu e Leo também somos parceiros. Quando chegou em Curitiba, poderia até estar decidido a encontrar algum conforto, alguma paz ou uma rota de fuga em espiral que pelo menos o tirasse do meio do nevoeiro. Se ele encontrou? Encontrou a certeza que não é possível escapar ou fugir de nós mesmos, mas que é preciso fazer alguma coisa, mover pernas e braços, chacoalhar a cabeça embaixo de bastante água fria, rasgar mais a pele e costurar, qualquer coisa que seja para poder seguir adiante. Isso é bom? Bom, ainda estamos vivos, e isso importa de alguma maneira. Para quem? Para quem, como nós, sabe que a vida é cheia de percalços, de sentimentos contraditórios, de coisas boas e não tão boas, de quedas com direito a olho roxo e alguns ossos quebrados, que a ressaca vem junto com insatisfações em meio a algum conforto pela tentativa. Nos textos a que fui apresentado, conheci o passado, o desconforto da inadequação, do sentimento de estar no lugar errado, da vontade de crer em alguma coisa mesmo que não seja humana, da necessidade de compartilhar histórias de vida, de sentar e simplesmente tomar cerveja olhando o vai e vem de pessoas ocupadas com elas mesmas. Vi, de certa forma, a felicidade caminhando despretensiosa até o próximo quarteirão. Vi a infância no colégio, a primeira namorada, os primeiros amigos e desafetos. Vi a revista de mulher pelada escondida estrategicamente para os momentos de absoluto tédio e solidão, quando só o tesão pode ter a manha de mostrar que você ainda está vivo. Vi o quanto poderia ter dado em grande cagada aquela ideia fantástica numa chácara isolada, onde todos tomavam uma merda qualquer, com o pretexto de conseguir alguma coisa a mais de si mesmos, mas que no fundo era só mais uma desculpa para trepar com as garotas mais legais da cidade. Vi o desespero de um pai, de uma mãe, conscientes de que não tem volta, que aquela criança bem cuidada, amada, de olhos limpos e tristes não está mais por perto. Vi o amor chegar e ir embora. Vi o quanto isso deixou marcas. Acontece que me vi em pedaços, em fragmentos e em textos inteiros, em coisas que gostaria de deixar para lá, mas sei que não é possível. Somos assim, inteiros e imperfeitos, e isso deveria bastar. Por não bastar, continuamos aqui, perturbando e perturbados, quer fazendo ficção ou não, mas ainda mijando em muros e postes pela cidade, rindo da esperança que ficou sozinha na mesa de boteco com a conta pra pagar. O fato é que não existe mais névoa alguma sobre a terra que não consigamos andar através, olhos fechados ou abertos, tanto faz. Não existem mais sonhos ou esperanças, mas isso não é de todo ruim. Quem consegue calar o passado? Tentamos dia após dia. Talvez por isso tenhamos nos transformado em nós mesmos. É disso que Leo está falando, desse lento processo de montar e desmontar o quebra-cabeça da vida. Se ele tem um plano? Talvez.

 

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