Pra onde foi todo o ar que respiro?


Nunca se sabe onde as víboras se escondem até elas picarem, mas aí já é tarde demais.
Para Leo Vinhas, um grande amigo.

Quando passamos as pequenas colinas ao norte, um submarino apareceu de repente, vindo sabe-se lá de onde, no meio do pequeno deserto. Saiu de dentro da terra. Foi o terremoto. Essas terras já foram um pouco de tudo que existe no mundo – Sancho diz. Se eu não estivesse vendo com meus próprios olhos, jamais acreditaria. Estava ali um submarino da segunda guerra mundial aos pedaços, enferrujando no meio do deserto. Desmontamos. Eu tinha que olhar aquilo de perto. É bem velho, como o senhor pode ver – Sancho lia meus olhos. Era verdade. Dava pra ver o que sobrou do número, da classe do submarino e da suástica. Subi por uma escada torta e enferrujada que dava pra abertura da escotilha. Olhei em direção ao sul. Parecia que uma tempestade se formava no vale. Ia demorar e talvez nem nos alcançasse. Vai chover, gritei pra Sancho, que estava tendo problemas com os cavalos. Ele não ouviu. Olhei pela abertura escura, que descia direto na vertical para o interior do submarino. Estiquei a minha perna esquerda em direção à escuridão. Meu pé tocou em alguma coisa que parecia aguentar o meu peso. A perna direita encontrou o degrau, ou onde quer que esteja eu apoiado, sem dificuldade. Me abaixei até ter certeza que havia passado por inteiro pela escotilha. Foi quando ouvi um estalo, um grande estalo de metal se partindo e fui lançado direto pro fundo da escuridão. Meu ouvido ainda zumbia com a pancada de todo o meu corpo de encontro com o que parecia ser o chão da embarcação. A pesar disso pude identificar a voz de Sancho ecoando dentro da escuridão, falando qualquer coisa, não sei se pra mim ou com os cavalos. Levantei procurando ter cuidado, tentando evitar outro acidente. Dei dois passos em direção à luz que entrava pela abertura da escotilha e senti uma agulhada forte no tornozelo. Aquilo queimou de verdade. Era como ferro em brasa atravessando a pele. Dei um grito e procurei me segurar em alguma coisa, mas não encontrei nada por perto. Caí outra vez e o terror me acompanhou. Senti outra agulhada tão forte quanto a primeira em meu braço direito e depois outra e mais outra. Foram umas cinco ou seis antes que eu conseguisse recuar. Mas o que era aquilo? Gritei por Sancho e eis que uma corda despencou lá de cima. Dei duas voltas completas ao redor da minha cintura e fui ajudando como pude até sair por completo daquele buraco. Quando cheguei à luz, vi com felicidade o rosto suado de Sancho, mas não consegui entender o que ele falava em seu desespero. Logo depois uma febre como nunca antes conheci dominou meu corpo. Olhei para o mesmo sul e tudo parecia estar ora emaranhado, ora se dissipando, se transformando em grandes nuvens negras. Uma névoa se instalou ao meu redor. Mal pude me fixar em Sancho até que tudo o que me cercava desapareceu dos meus olhos.

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