Madalena


Trabalho sempre dá trabalho. Me atrasei no banho, me atrasei com a roupa, mas consegui sair de casa em tempo de ainda pegar a terceira música. Dei sorte de chegar antes da chuva, senão, tudo arruinado. O salão não estava totalmente cheio. Estranho. Lota às terças. Deve ser o mau tempo. A orquestra, precisa como sempre, ainda não tinha tocado a minha música. Reconheço, pelos movimentos iniciais do maestro, que estão prestes a executar a minha preferida. Madalena estava no canto oposto, onde fica a maioria das mesas. Fumava. Não aprovo muito mulher que fuma, mas Madalena eu perdoo. Estava rindo em meio à roda de amigas e percebeu que eu olhava direto para ela. Baixei os olhos quando ela olhou, mas ainda podia ver a imagem dela gravada bem dentro de algum lugar na minha cabeça. Estava linda com aquele vestido. Cor de romã o vestido. Reconheci, sem olhar direto para o palco, os trejeitos do maestro. Era ela, a minha música predileta ia começar. Não era hora dela ainda e não sei por que adiantaram a sua entrada. Eu precisava de um copo de bebida na mão. Corri para o balcão. Campari a bebida. Não bebo, mas Campari é Campari. Encostei-me ao canto habitual, ajeitei o lenço vermelho no bolso do paletó e conferi se o chapéu tinha o caimento perfeito. Todos estavam sem chapéu – muitos nem terno vestiam, parecia que nem se davam conta da importância do momento. Madalena ao ouvir as primeiras notas da canção, olhou direto na minha direção. Pude ver que todas se calaram acompanhando o movimento do seu queixo fino, da sua boca de batom, seus olhos desenhados, seus dentes perfeitos, seu perfume… Sentiram a pontada da inveja por ela ser desejada, com certeza sentiram. Algumas foram tiradas para dançar. Madalena não. Não por falta de pretendentes. Ela ia, um a um, declinando dos convites. Isso me encheu de orgulho e esperança. Era correspondido em minha paixão. A música ia se aproximando do seu melhor apelo, Madalena me olhando fixo e meus pés não correspondem. Não sei dançar. Madalena e seu vestido de caimento perfeito, cor de romã, e eu não sei dançar. Madalena e seus olhos de esmeralda, e eu incapaz de conduzir com desenvoltura seu delicado corpo nesta linda valsa. Madalena e seu melhor olhar e eu incapaz de me mover em sua direção e revelar toda a minha farsa. Todas as terças, o mesmo dilema: sou incapaz de compreender o ritmo e organizar meu corpo para corresponder ao estímulo da música. Incapaz eu sou de me trair, mas amo tanto Madalena que em meus sonhos estamos juntos, abraçados como amantes, e nem a dança pode nos separar.

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