Três dedos… antes de dormir.


O peixe balançava do outro lado do anzol com o que ainda lhe restava de vida. Era o começo do outono e tanto o tempo como a vida davam sinais de cansaço. A água estava começando a ficar mais fria que o normal e daqui a pouco todo o rio congelaria. Quando era criança ficava olhando as águas congeladas e pensando para onde iam todos os peixes, se morriam ou simplesmente, como fazem as aves, migravam para águas mais quentes. Tantas foram às vezes que ficou sem resposta que entendeu que na verdade existem dois mundos num só: o que ele julga conhecer e o que ele não sabe as respostas.

O barulho que fazia a sola dos sapatos no piso liso e brilhante que conduzia à sala principal era como se uma voz bem próxima, íntima, tivesse cantando uma antiga canção de ninar. Todo o prédio fora construído com um único fim: impressionar pela suntuosidade, pela imponência e pelos exageros nas formalidades dos detalhes. As pessoas existiam antes e depois que entravam ali. Por alguma razão estranha, uma parte significativa de tempo lhes era roubada e simplesmente deixava de existir. Então todos assumiam ares sérios, de homens e mulheres com os quais não se deve ousar pensar em brincar. Ali costumavam meninos transformarem-se em homens, dizia o velho pai. A única coisa que podia sentir estar se transformando era o seu corpo, que dia após dia, enrijecia os músculos, começando com os da face. Achava que uma vez lá dentro, todos os homens eram de pedra.

Seus cabelos estavam começando a cair. Primeiro pequenos fios, agora cachos inteiros se desprendem da cabeça pra se perderem para sempre em cantos, onde não são mais vistos. Olhava fixamente seu rosto agora cheio de vincos. Pensou que, quando criança, gostava de ver os sulcos na pele da mãe, do pai. Achava que era isso, a idade, que lhes dava toda a credibilidade necessária para continuarem a mentir, um para o outro e depois para todos. Esperava pelo olhar, pelo final de cada frase o grande dia em que ouviria o pedido de desculpas, de socorro. Mas ele nunca veio – pelo menos ele nunca conseguiu escutar. Talvez não estivesse prestando atenção o suficiente ou ocupado demais com as coisas da juventude.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: