Senhor Perdonccinni


Olá. Bom dia. O Senhor é o encarregado pelo prédio?
Sim, pois não. Bom dia. O que deseja?
Vim pelo anuncio do quarto para alugar.
Quarto para alugar?
Sim, no terceiro andar.
Terceiro andar, hum… Deixe-me ver… Sim, terceiro andar, quarto simples para alugar, com banheiro compartilhado. Este anúncio é da parte do senhor Perdonccinni.
Ótimo. Ele está?
Muito bom que ele decidiu alugar o quarto. As coisas para ele não tem sido fáceis depois do que aconteceu com a esposa.
Hum.
Há muito que eles eram casados, mas acho que ela nunca o amou realmente. Dava para perceber que a relação estava se deteriorando, pois eles moram aqui desde que casaram. Este é o primeiro e único imóvel do senhor Perdonccinni, pode acreditar. Eu o conheço desde que passou pela mesma porta que você há quarenta anos atrás. Onde estava? Deixe-me ver… ah, sim, antes ela era uma esposa como qualquer outra, vivia para seu marido e filhos, que nunca tiveram. Não que não tivessem tentado – Me parece que ela não podia ter filhos. Depois, como o passar dos anos, ela foi perdendo a vontade de permanecer ao seu lado. Parou de sair e ficava confinada no apartamento. Quando eu ia, sempre a pedido do senhor Perdonccinni, verificar qualquer problema com o encanamento ou o que quer que o valha, percebia que ela se retirava para o quarto e trancava a porta. Em raros momentos pude vê-la e constatar que não se parecia em nada com o que fora no passado. Ela tinha o cabelo emaranhado e sujo assim como toda a sua aparência parecia suja e gasta – o senhor Perdonccinni ficava constrangido só de saber que eu a tinha visto. Tempos depois ele me pediu ajuda para que pudesse lavá-la de alguma maneira, esforço que se mostrou inútil, pois ela parecia um peso morto, como se fosse um grande pedaço de carne de difícil manuseio. O senhor Perdonccinni estava muito abatido e passou a não parar mais aqui na portaria para nossa habitual conversa – Eu tenho sempre a mão uma garrafa para essas ocasiões, quando algum morador resolve descer e partilhar um pouco da sua existência comigo, sabe? Antes de isso acontecer me confidenciou que a esposa tinha desistido de viver e ele estava desesperado, tentando fazer com que ela voltasse a ter qualquer interesse que fosse pela vida, pois sem ela ele não poderia mais continuar suportando tudo que esses anos fizeram com ele. Bom, teve uma noite que eles saíram para jantar – há tempos ela não preparava mais nem o almoço e nem o jantar para os dois. Não sei como, ele conseguiu que ela vestisse um dos seus vestidos para sair e foram para a casa de massa aqui para cima, umas duas quadras do prédio, sabe? A comida deste restaurante é muito boa e o lugar, apesar de simples, é bastante agradável. Eu lhe indico, caso venha se confirmar a sua permanência aqui no prédio… Mas então, eu estava, deixe-me ver… Ah! Sim, eles foram ao restaurante, ela pediu fetuccinni e ele rigatonne. O sabor dos molhos eu não me recordo, mas foi isso que pediram, pois me lembro do senhor Perdonccinni ter me confidenciado isso posteriormente ao dramático acontecimento. Quando voltaram, por volta das vinte e três horas, voltaram como saíram, em absoluto silêncio e presumo, por conta disso, que o jantar deu-se da mesma e silenciosa maneira. O senhor Perdonccinni foi o único a me cumprimentar, pois a esposa não tirava os olhos de um lugar impossível para qualquer pessoa em sã consciência chegar – Era como um destes zumbis, tão populares hoje em dia -, e então se retirou para o seu apartamento. Ele nunca me falou sobre isso, mas nas vezes, foram poucas, mas existiram, que eu tive a oportunidade de entrar em seu imóvel, por conta de pequenos consertos como mencionei a você anteriormente, percebi que ele passara a dormir na cadeira da sala, em frente à televisão, e não mais no seu quarto ou sua cama. Isso me cortou o coração, pois, como você poderá ver por si só, o senhor Perdonccinni é um bom homem e não era merecedor de tal tratamento por parte da esposa. Ela tinha se desencantado para com ele, mas isso era uma situação inadmissível a meu ver. Bom, nessa mesma noite, ela se levantou, vomitou todo o jantar e se dirigiu para a cozinha. Lá chegando, pegou o picador de gelo na gaveta de talheres e agrediu o próprio corpo um cem número de vezes. O senhor Perdonccinni, que estava dormindo na cadeira da sala, acordou e foi averiguar da onde vinham e o que eram aqueles barulhos surdos. Foi quando encontrou o corpo da esposa caído no chão da cozinha, coberto pelo sangue dela. Ele se desesperou e por um momento não soube ao certo o que fazer. Momentos depois, e que foram cruciais a meu ver, ele ligou para a emergência. Quando eles finalmente chegaram já não havia mais nada a se fazer que voltasse a vida da esposa. Encontraram-na e o senhor Perdonccinni paralisado ao seu lado, grudado ao chão da cozinha pelo sangue da esposa. Isso tudo eu li no boletim policial, que foi publicado na imprensa algum tempo. Acontece que, em minha opinião, não foi bem assim que aconteceu o desfecho trágico. Conhecedor da situação em que se encontrava o casal eu duvido que ela tivesse forças para infringir-se a própria morte. Na minha modesta opinião, o senhor Perdonccinni foi muito sagaz e ardiloso em fraudar o assassinato da própria esposa, que ele via deteriorar-se dia após dia a sua frente. Para mim, foi isso que aconteceu e nada vai mudar a minha opinião, mas veja bem, em respeito a minha amizade pelo senhor Perdonccinni, jamais vou abrir a boca para contar a quem quer que seja a sua tragédia familiar. Jamais. Mas vamos ao que interessa: sua locação, não é mesmo? O Sr. Perdonccinni, como faz todas as manhãs há quarenta e dois anos, foi ao mercado central e deve retornar por volta das dez e meia da manhã. A senhorita pretende aguardá-lo?

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2 Responses to Senhor Perdonccinni

  1. roberto prado disse:

    Sen-sa-ci-o-nal! Espero um dia ter um petardo de 300 páginas poderosas como estas em mãos…

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