Inverno


O frio ainda não havia chegado com toda a sua força àquelas paragens, mas o céu já se recortava das cores de inverno que todos da região conheciam bem. Um bezerro foi o motivo de todo estardalhaço na madrugada e manhã por parte dos funcionários da fazenda. Diogo e o capataz haviam capturado o fugitivo e agora ele estava ali, de joelhos na terra fria, arrumando as madeiras da cerca por onde o bezerro escapou. Ana estava a cinco metros dele e observava o remendo enquanto indagava Alberto, o capataz sobre assuntos pendentes. Mais nova e única mulher de oito irmãos, também fora a única a sobreviver aos pesados dias da revolução, suas lutas e fome, que ceifaram a maior parte dos homens e mulheres de toda a região e país. Ana gerenciava a fazenda com a força da morte – dos oito irmãos, de seu pai e de sua mãe. Os cadáveres dos Santilhanas a mantinham viva e forte em todas as suas decisões. Mulher de poucas palavras e de beleza indecifrável, Ana nunca fora vista com homem nenhum. Alguns diziam palavras sobre uma maldição – se de algum homem ela se aproximasse e por ele nutrisse algum afeto, este logo conheceria a morte. Enquanto arrumava a cerca, Diogo observava suas luvas velhas e esgarçadas. Aqui e ali o couro dava sinais de fadiga e rompia-se como algodão velho. Precisava de luvas novas, pois este seria um inverno pior que os anteriores. Pior até que todos os antigos invernos que se tem notícia ou lembrança.
Três dias inteiros para que frio começasse a fazer seus estragos e vítimas. No quarto dia, nada vivo se mexia a não ser que estivesse a salvo em algum abrigo para homens ou animais. No décimo, um urso pardo apareceu e resolveu fazer do rebanho de Ana Santilhana seu banquete. Três reses se perderam para sempre. Nem o couro o urso poupou, tamanha sua fome. Na manhã do décimo segundo dia, não tendo nevado nem neste e nem no dia anterior, Alberto, Diogo e Ana, armados de rifles de longo alcance, foram ao encontro do urso. Era fácil seguir a trilha de pegadas e sangue na neve fofa e branca. Todas as marcas levaram os três caçadores a um desfiladeiro conhecido pelas avalanches e por buracos que se abriam na neve, bem embaixo dos pés, e se transformavam em imensos abismos. Desmontaram os três para perder o peso dos cavalos e sua carga e seguiram pé ante pé, atrás da rota deixada pelo urso. Pararam na entrada de uma fenda na neve, possivelmente uma caverna usada pelo urso como abrigo. O cheiro que os recebeu fez Diogo vomitar. Logo que se aprumou, envergonhado, desculpou-se pelo seu estômago fraco – única herança da família desconhecida, amaldiçoava em pensamento. Quinze dias, um mês inteiro, dois meses se passaram da partida dos três e nenhuma notícia, boa ou ruim, irrompia para fora da nevasca que se estendeu pelo restante do inverno. Foram mandados batedores índios, mas até esses voltaram sem notícias, nem dos caçadores, nem do urso, que também desaparecera. Quinze anos se passaram daquele inverno. Hoje as crianças brincam nas sombras que o sol de verão faz na grande figueira e árvores próximas. Brincam de jogar água uma na outra, brincam com cocares índios, com pistolas de cowboy, com brinquedos de madeira. O mais novo tem por volta de três e o mais velho dos quarto irmãos homens, dez. Ana está grávida e desta vez ela espera que venha uma menina, a qual dará o nome de Júlia, o mesmo nome de sua mãe. Sobre aqueles dias na caverna, Ana e Diogo preferem esquecer. Apenas levantaram, no alto de uma colina, um belo memorial de pedras negras ao capataz Alberto e nunca mais colocaram um naco de carne na boca, apesar de ainda manterem um grande rebanho de corte na fazenda.

Anúncios

4 Responses to Inverno

  1. congratulations my friend, your website is awesome, i really appreciate coming here to see what you have. lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails

  2. it was a great experience to read such kind of great work i really enjoyed while reading this article. lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails lista de emails

  3. neusa maria de andrade maximo disse:

    Rubens, vc agarrou o leitor pela mão e não largou até o fim! Muito
    bom!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: