Lá fora, os pingos da chuva não nos dão outra opção… a não ser o frio do inverno


Lá fora, os pingos da chuva trazem à tona muito mais do que se pode imaginar – rabiscam desenhos nas paredes, no concreto, se enfiam, engalfinham entre falhas e folhas da calçada, entre sobras de espaço. O batom protege os lábios. A manga da camisa e o colarinho escondem a pele ainda manchada pelo sol, da brisa fria. Por baixo, o corpo vibra pequenos barulhinhos de excitação, imperceptíveis. Sobra o resto do rastro de um perfume, o instante onde o cabelo foi de um lado para o outro, livre, liberto, desafiando o vento e pequenos fragmentos do ar, o pedaço de esmalte que se desprendeu e ainda repousa num dos cantos, em súbito esquecimento. Sobra um resto de uma alegria amarga, um gemido de uma dor antiga que se faz ressoar bem no centro da barriga.  Não me animo. Não sobra mais nada. De uma hora para outra, nada se levanta em defesa do tempo que nos deixou, com pouca ou quase nenhuma lembrança. Nenhum recado, nada, nenhum eco de voz. É como se a existência se extinguisse, indo para debaixo dos pés suados, das meias grossas,  para então escorrer pelo chão, procurando o vão da porta, a calçada, encontrando o comecinho da chuva, para ir buscar na terra, o conforto de um abraço. Somente ela, a terra, pode te dar um sentido de fim.

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