Infiltrado


Tenho horário pra fechar. Todos têm. Isso acontece sempre. Andou pelo lugar, contornou vários modelos de caixão e escolheu um imenso – parecia de carvalho maciço aquela merda. Diácono era sempre assim, emotivo com tudo. Uma vez atropelamos um cachorro numa estrada e ele me fez dar meia volta, na contramão, para ver se o bicho estava ou não vivo. Olhei para os rapazes e mandei levarem o caixão pro caminhão. Diácomo sentou-se à mesa para preencher a papelada. Eu fiquei atrás, como sempre. Esse era o meu serviço – ficar atrás de caras como Diácomo, como Cezar, como Álvaro. Cezar era um filho da puta. Sentia prazer em humilhar todos que encontrasse pela frente.  Diácomo nem desconfiava, mas Cezar comia mulher e filha dele. Um filho da puta. Álvaro era o mais velho. Era o mais sério também. Nada falava que não fosse o estritamente necessário. Gostava disso. Álvaro era um bom cara. Vou ter saudades das nossas não conversas. O caixão era pra ele. Alguma coisa saiu do controle ontem nas docas, disse Diácomo, e Álvaro levou dezoito tiros. Uma semi-automática faz um estrago enorme na mão de quem conhece o material. Diácomo sempre esteve perto da morte, a diferença é que antes ele controlava quem ia ser morto. Desta vez não. Se não fosse trágico, seria engraçado ver um homem deste tamanho chorando que nem criança. Mas não é engraçado. O próximo da minha lista é Cezar. Este vou matar com a faca. Quero ter certeza que ele olhou bem dentro dos meus olhos quando cortar sua garganta. Quero ver ele rir desta vez.

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