Enquanto os Beatles faziam de conta que não era com eles


Tá, eu levo o lixo pra baixo. Colesterol alto, glicose também. Não vai ser o cheiro do lixo que vai me matar. Chove como nunca por aqui. Eu morava lá. Lá também chovia. Aqui chove e é pior, na periferia, mas é pior. Lá eu não sabia que existia periferia, nem centro nem nada. Tudo nada por aqui. Já nasce assim, se bem que poucos nascem por aqui, são de fora. Um bairro inteiro que não fala a minha língua. Trabalham, ganham dinheiro e conspiram contra nós, de alguma maneira é isso que devem fazer quando falam e não entendo. Imagino o que dizem. Também vou falar em outra língua que ninguém entenda. Vou inventar uma, assim tenho a certeza de não ser compreendido. Pego o troco, engraçado: Não falam a língua, mas não erram no troco. Devo ser o único imbecil por aqui. Meses que não me interesso por nada. Muita coisa pra pensar, pra fazer, pra montar. Comprei um alicate e uma trena nova, não me perguntem por que. Me fez um bem danado, um certo poder o de montar e desmontar coisas  – é tudo que um cara precisa por um tempo. Igrejas espalhadas por toda parte. Rezam muito, pecam muito e enchem muito o saco se desculpando e inventando mentiras. O ódio anda em placas por aqui. Estação Paraíso. Prefiro pular e fazer a conexão na próxima. Não sei bem por que, mas faço isso. Superstição, talvez. Uma amiga me falou sobre candomblé. Eu tava bêbado e naquele estágio que não entendo nada, então só concordava com tudo que ela falava e fazia uma cara amigável. Ela me ligou no dia seguinte pra irmos a um centro. Centro? Como assim? Tive de furar. Dentista, falei. Depois me deu um cagaço de o santo saber que eu pulei fora da coisa mesmo. Centro? Não obrigado, mas rezei “uns” Pai Nosso pra afastar a coisa debaixo do tapete. Não gosto do que não vejo. Deus sabe disso. Cortou o cabelo? Sim, cortei. Também bati duas punhetas hoje, tem algo contra? Tem dias que não devemos existir, não dá nada certo. Passei por uma livraria. Fui atrás de um presente – quadrinhos. Eu, sinceramente, não leio. Não tenho paciência. Gosto de biografias. Assim você sabe da vida do cara do começo ao fim, se ele estiver morto. Se não estiver, dá pra ter uma idéia de como vai ser. Posso até continuar esse capítulo. Tem um cara interessante, vai lançar um livro não sei onde. Pergunto logo: Tem biografia? Se não, não me interessa. Não tenho saco de conhecer o cara, a vida dele ou sua risada fora do controle das páginas, capítulos.  Não me interessa. E tem essa história de não poder fumar mais dentro de bar, restaurante. Bom, eu parei de fumar. Todos fumavam. Tô pensando em voltar. Lei idiota. As pessoas estão cada vez mais civilizadas. São insuportáveis nessa civilização. Gostava quando ninguém queria salvar o planeta, o pulmão dos outros ou aquele bicho estranho. Gostava da selvageria no embarque do ônibus, na fila do pão – porra, bom é pão quente, mas explique isso pra velhinha que não tem ninguém pra conversar, porque ela é uma mala, e agora fica de papo com a atendente, que, civilizadamente e por medo de perder o único emprego que conseguiu, depois de se formar em alguma coisa por uma dessa conceituadas faculdades e ficar sem emprego por três anos, dá atenção a maldita velha enquanto o teu pãozinho esfria. O mundo não é nada justo. Por que eu tenho de ser? Ganhei um iPod. Isso sim me fez parar e pensar. É bom colocar os fones, abrir o guarda-chuva, pisar na calçada e fazer de conta que não é com você. Nenhuma informação, nem um bom dia. Sou um extraterrestre quase invisível nesta cidade. Entendo o Sting, entendo a canção que sugere que melhor seria ir aos campos de morangos e ficar lá, para sempre. Fez sentido agora, bem perto da minha cabeça, bem dentro das minhas orelhas. Tudo fica bem mais distante e quase não penso mais em voltar. Quem sabe eu fique pra sempre?

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