Tinha gosto de frutas, o bolo. Não entendi se era aniversário de alguém ou alguma comemoração qualquer e alguém resolveu levar um bolo…de frutas, aquelas cristalizadas. Não gosto de frutas, muito menos cristalizadas, nem doce eu como, mas não pude fazer nada a respeito. A força me faltou na hora. Empurrei com coca e tudo ficou um pouco melhor. Ela parecia animada num canto. Era aniversário o lance do bolo. Ela fez 31. Trinta e um. Já passei por isso. Dias piores virão. Tive vontade de falar alguma coisa, mas ia ser desagradável e ela parecia feliz com os 31 e os amigos e o bolo. A hora vai chegar. Desisti, como na maior parte das coisa que começo a fazer, desisti. Alguns me acham um puta fracassado. Tenho pena deles. É que não fico colocando as coisas em papeizinhos e pendurando na geladeira. Que se foda a geladeira se não tiver cerveja. Pra que ela serve? Papeizinhos? Que se fodam. Olhei pros meus sapatos velhos, pra minha calça velha e depois pra minha cara velha. Tudo estava em perfeita harmonia, combinando, como diria Glória kalil. É assim que me sinto, velho, fodido, com a camisa amassada por fora da calça, com o cabelo mal cortado, com as unhas do pé roídas, com uma certa vantagem pra alguém com 31 anos. Isso, de certa maneira, me reconforta. Ela me olha de cinco em cinco minutos, acho que pra ter certeza que ainda estou por aqui, vivo, em pé, esboçando um ar meio feliz por ela, sugando a fumaça e depois soprando, meio prensada, por cima do bolo. Não é todo dia que fazemos trinta, ouvi alguém dizer. Nunca soube de alguém que repetiu qualquer idade em toda a sua merda de vida. Seria uma puta idiotice, apesar de existirem pessoas capazes de cometerem essa e outras atitudes idiotas. Pensei em falar que isso era uma idiotice, mas declinei. Era o irmão dela. Ela ia achar que era implicância. Sempre falou isso, que eu implicava com a família dela inteira. Claro que implico, é lógico. É a única defesa que tenho contra a certeza deles por mim. Resolvi ir lá fora pra respirar, mijar ou vomitar, pra ver no que dava. Passei o dia inteiro dirigindo um carro, o carro dela, levando meus pais em médicos e hospitais. Passei o dia pensando em como nos tornamos inúteis mais rápido do que podemos compreender. Passei um dia inteiro absorvido por vidas que não eram a minha mas, de certa maneira, me sentia responsável por elas. A melhor parte do dia foi quando um camundongo resolveu dar as caras na superfície. Saiu desavisado do bueiro, de onde nunca deveria ter saído. Caminhou pela calçada, entre gritos histéricos de velhas e putas nojentas carregando bolsas caras e jóias idem. A cagada foi ele ter parado em frente a porta de um banco. Não dava pra fugir. Levou um chutão que atordoou o bicho. Ficou desacordado, pensei, e agora elas vão deixar ele pra lá. Não. Uma vadia sádica chutou o rato pro meio da rua. Durante um bom tempo, por milagre, os carros desviaram. Sei lá porque olhei pra cima quando pensei nisso. Sei lá porque pensei ver nas nuvens uma em forma de pé. Sei lá porque pensei que agora só falta o último e derradeiro pontapé. Já estamos a um bom tempo fora do esgoto – isso é um milagre, ou não é?
Três
Quinta-feira, 4 Dezembro, 2008Três é um bom número. Mas eu não queria começar assim, não de novo. Quando ela chega do trabalho, fala de pessoas que eu não conheço. Eu fico montando o quebra-cabeça, mas nem sempre acerto. Eu não sou bom com nomes, eu não sou bom com a previsão do tempo, eu não sou bom com merda nenhuma. Ela cortou o cabelo, mas eu fiz de conta que não percebi. Também não sou bom com elogios. Tem um analista que dá conselhos. Tem uma amiga que não vai com a minha cara, tem um pai à beira da falência e do ataque de nervos fatal. Ela demora pra relaxar, então eu passo as costas da mão pelo corpo dela; ela me olha como se isso fosse o melhor que já fizeram por ela hoje e sempre. Então me abraça e a gente fica assim, grudados, pelo resto da noite. Tenho vergonha de dizer certas coisas – não sei mesmo. Acho que foi a educação que me deram. Então eu não falo nada. Fico só escutando a respiração dela no escuro. Tento, mas não lembro muito bem o que ela me disse no começo de tudo, mas eram três… é um bom número, três.
O México é uma grande merda, se você quer saber
Quinta-feira, 6 Novembro, 2008São três horas de carro daqui até Palo Verde. Palo Verde? Não me é estranho o nome. Tenho que pegar uns escritos de Armírio Puentes. Eles tem de estar na editora até às três da tarde de hoje. Meio-dia. Nem preciso olhar o relógio. A porra do sol bem em cima da cabeça, torrando tudo. A camisa aberta no peito. O suor escorrendo como uma pequena torneira esquecida aberta por mãos com unhas compridas, vermelhas. Gosto do vermelho. Juan diz que só as putas usam vermelho. À merda com Juan. O que ele entende de mulher? Que eu saiba, ele nunca esteve com uma de verdade, que fala, anda, mija, essas coisas que elas fazem o tempo todo. Tudo o que ele sabe de mulher é o que vê nas revistas de quinta categoria escondidas em lugares estratégicos. Gotan Project no toca-fitas. Toca-fitas mesmo. Tive de passar do CD pro toca-fitas. No México não existe CD Player nos carros, não me pergunte porquê. Fico imaginando ela dançando, com boca e unhas vermelhas, espalhando todo o perfume pela sala, calcinhas minúsculas. Meu pau fica duro na hora. É difícil pra caralho dirigir de pau duro. A estrada pra Palo Verde é uma merda completa. Alterna entre poeira, chão batido, pedras enormes e mais poeira, muita poeira. Você passa e deixa pra trás uma nuvem avermelhada, fina, que parece uma névoa delicada. É até bonito quando se está bem longe dela. Perto ela gruda, tranca a garganta, entope os poros, transforma o branco em vermelho levemente alaranjado. Gruda no suor. Terra desgraçada. Tenho pena e raiva das pessoas que cruzo no caminho. Toco a buzina pra saírem da frente -estou dirigindo a oitenta por hora. Devem achar que sou um louco, ou fugitivo, ou não devem achar porra nenhuma. São preguiçosos demais pra achar ou pensar alguma coisa. Muito da preguiça se deve ao calor. Quando eu trepava com ela, a cama, o chão, o teto suava. Tudo derretia. Foi a experiência mais intensa, a mais próxima de foder no inferno que eu já experimentei. Bom pra caralho. Não tenho o endereço do Puentes, pelo menos não um endereço convencional. O papel que tenho diz assim: Pegue a estrada que leva à Pedra de Santa Maria. Depois eu devo descer a primeira à esquerda de um cacto enorme. Espero que seja enorme mesmo. Cacto é o que não falta por aqui. Então devo seguir até uma porteira arruinada, com um riacho à direita da porteira, que deve estar seco nessa época do ano. Um tempo depois, devo avistar o pasto com as cabras e uma pequena montanha. Depois da montanha fica a entrada da casa do Puentes. Puta que o pariu: Cacto, porteira, rio seco, cabras, montanha. E se as cabras tiverem dado no pé? Se morreram de sede? E se arrumaram a merda da porteira? Puentes não tem telefone. Puentes não tem internet, sequer usa máquina de escrever. O cara escreve tudo a mão. Da outra vez eram mais de quinhentas folhas manuscritas numa caligrafia impecável. Ele mandou Diego Rivera avisar que acabou o romance. Diego Rivera. Esse filho da puta vive de intermediar trambiques por todo o México. Um homem de “conexões”, segundo ele mesmo. Uma vez prometeu umas putas pro lançamento da revista de artes. Fodeu com tudo. Duas eram mulheres – as mulheres mais feias que eu já vi na vida, as outras oito tinham o pau maior do que todos os presentes. O pior é que os gringos adoraram a merda toda. Tive de agüentar o Rivera dando uma de gostoso o resto do ano. Pior, tive de pagar o que ele pediu pelas “garotas”. Achei o cacto e estou descendo um barranco que um dia pode ter sido uma estrada. Não tenho nada contra a miséria, a pobreza, a exploração sexual das mexicanas, a tequila, o peiote, essas merdas de estradas. Só queria não ter de fazer parte disso o tempo todo. Ela deve estar bem longe agora. Num dia éramos amantes, no outro… Não a vi mais. Não deixou rastro, sumiu como uma nuvem de poeira. Ela não sabia que eu planejava uma vida inteira pela frente. Não sabia que eu planejava pedir a conta do trabalho e ir morar perto do mar, como planejamos. Ela não sabia que eu tinha tudo arquitetado, todos os detalhes, bem aqui dentro da cabeça. Nem me deu chance de contar. Isso que me emputeceu. Como ela pode sumir assim? Passei o pasto onde as cabras comem pedras. Estou bem perto da casa do Puentes, imagino. Não consigo decorar o caminho que faço. Sempre me perco. Sempre. Foi o pensamento nela que me tirou toda a atenção. Entro na casa do homem. Uma casa bonita de pedras rústicas. Tudo muito bonito. Diria que é sofisticado o lugar, se fosse um veado. As plantas não são secas como em todo o resto. Tem um cheiro de verde que invade o lugar todo e flores penduradas em cada canto. A sala é fresca e ampla. Mais flores. A casa toda deve ser assim. Puentes está de costas, um cara de sessenta e muitos anos, grisalho, escrevendo ou mexendo em alguma coisa numa gaveta. Ela está deitada, adormecida no sofá, nua. Paro ao lado da mão pendente de unhas vermelhas e olho bem pra sua boca borrada de vermelho. Na volta me perco e não consigo achar a porteira. Quer saber? Que se foda esse trabalho idiota. Que se foda Puentes e ela e a cor vermelha. Na minha frente tem uma estrada que é uma reta só. Deve dar em algum lugar com um daqueles bares que só o México tem. Uma nuvem de poeira me persegue por todo o caminho. Uma nuvem de poeira e o manuscrito de Puentes, voando desordenadamente atrás do carro. O México é uma grande merda, se você quer saber.
Onde a estrada termina
Sexta-feira, 3 Outubro, 2008
O mostrador de gasolina está quebrado. Deve dar pra chegar em Plymouth. Se não der, largo o carro por aqui mesmo. Dirigi por três dias sem parar e estou mesmo precisando andar um pouco. Deixo os vidros abertos e o ar passa rápido. Isso me mantém acordado, olhando pra linha branca bem no meio do asfalto negro e sibilante. Plymouth é uma cidadezinha quase deserta no meio de lugar nenhum. Tudo se resume na rua principal e algumas casas espalhadas até mais ou menos uns trezentos metros dela, a um pátio de trailers falidos, sem rodas. Acho que por aqui não precisam mesmo de rodas. Tenho de achar a casa da família de Maria, ou o que sobrou dela. Não sei bem o que procurar, por onde começar, se por um pai, mãe ou avô, avó. Maria nunca me deu nenhuma dica sobre a sua família. Devem estar todos mortos, mas há uma chance. Não sei o que vou dizer quando encontrar alguém. Conheci Maria na Filadélfia. Trabalhava de garçonete na espelunca onde a minha banda mendigava uns trocados, cerveja e droga boa. Ficamos juntos depois de um tempo. Maria era desconfiada com estranhos, mas depois que os conhecia, bom, já não eram mais estranhos. Tive os melhores momentos da minha vida ao lado dela. Não sou do tipo que tem ou alimenta sonhos. Sempre vivi dos sonhos emprestados dos outros. Achava uma bobagem alguém acreditar que poderia ter mais do que a vida estava oferecendo. Por mim estava bom. Pra Maria não. Queria mais. Queria um gramado, uma macieira, morangos e uma criancinha suja e sorridente correndo pela casa. Por mim estava bem, desde que ela nunca me deixasse sozinho. Maria morreu num assalto ao banco. Estava indo depositar seu sonho quando uns caras resolveram que também iam mudar de vida, só que com bem menos esforço e tempo. Eu estava indo avisar a quem pudesse interessar que o pote com cinzas no banco ao lado do meu era tudo que restava dela agora. O Camaro tem um motor de 450 cavalos. Faz um barulho dos infernos quando se está no meio do silêncio. É o que ele faz de melhor: correr o mais rápido possível, com um barulho infernal nos calcanhares. O barulho espantou os cachorros que dormiam no meio da rua. Também fez os caipiras saírem da onde estavam abrigados do tédio pra ver o que lhes pareceu a carruagem do apocalipse. Esqueci de dizer que o Camaro é na maior parte laranja, com labaredas de fogo vermelho pintado nas laterais. Um amigo artista fez a pintura. Ficou realmente muito boa. Achei que isso ia impressionar as garotas, mas, na verdade, acontecia meio que o contrário. Elas achavam que o carro era de um playboy idiota qualquer e não me davam a mínima chance. Maria me conheceu sem o carro mas ria quando saíamos já de madrugada pra casa, antes de entrar nele. Às vezes, por brincadeira, se recusava a entrar. Dizia que estava sendo raptada e ficava gritando socorro pelo vidro aberto. Isso ás vezes me emputecia, mas nem sempre. Estacionei em frente ao que achei ser um bar. Era. Entrei e pedi uma Bud. O lugar era como eu pensava que seria. O povo do interior tem a mania de copiar coisas, que vê pela televisão, da cidade grande. Isso é bem engraçado. Fiquei no balcão por umas duas horas, eu acho. Depois fui para uma mesa perto da jukebox. Depois joguei uma partida de sinuca com um cara que mascava fumo e cuspia no chão. Ganhei vinte pratas. Achei que poderia ser um bom lugar pra viver. Poderia arriscar umas canções e jogar sinuca com os caipiras. Meu sustento não me preocupava, fazia bem as duas coisas. Era começo de noite quando olhei pra fora. O céu já estava repleto de estrelas. Bem diferente do céu da onde eu vim. Maria falava sobre isso. Ela tinha razão. Dava pra ver muito mais estrelas. Talvez eu ficasse mesmo por aqui. Ganharia um apelido dos caipiras, quem sabe deixaria o bigode crescer, adotaria um dos cachorros vadios pra companhia, talvez um ou dois dos gatos que estavam no bar. Alguém me pagou uma dose e me senti realmente bem depois de muito tempo. Talvez eu fique mesmo por aqui.
Obs: Isso aqui fica melhor se lido ao som da Cat Power “Idon’t blame you”. Tentem, vale a pena. Não sei ainda como colocar só som aqui. Nem sei se vou colocar, sei lá.
Quando um bom jazz faz a maior falta
Sexta-feira, 12 Setembro, 2008Dois dedos bastavam. Davam conta de segurar o cigarro e muito mais. Acender era outra história. Se estivesse vivo, teria 46 anos. Uma chuva fina cai enquanto eu penso que não sou o único a sentir a falta de alguém. Um disco velho no toca discos e a fumaça azul ganhando altura, tocando o teto pra depois cair como uma névoa maluca embaçando o quarto todo. Tranquei a respiração. Comecei a contar. Quando era pequeno fazia muito isso, prender a respiração, na piscina, enquanto corria, jogando bola. Minha mãe me deu um cascudo quando fiz isso na casa de uma tia qualquer. Não lembro da tia. Lembro do cascudo. Aquilo me trouxe de volta pra um mundo que eu não queria. Não queria estar ali naquela sala com aquelas pessoas. Acho que foi por isso que nunca consegui tomar decisões sem antes prender a respiração. Mas o medo do cascudo permanece. Ele sempre me desperta pra um mundo estranho, cheio de pessoas desconhecidas e irreais. Por muito tempo achei que se prendesse a respiração até quase explodir e fechasse os olhos bem apertados aquelas pessoas iam desaparecer. Não deu certo. Isso me enjoou. Fui pro banheiro e raspei o cabelo. Aproveitei e raspei os pentelhos também. Me senti bem assim, me olhando pelado, sem pêlos, no espelho. Pensei em bater uma punheta, mas achei que não era uma boa hora. O disco enroscou numa frase que fez o vocalista ficar com soluços. Prenda a respiração e conte até vinte, pensei. Que besteira. Lá fora tem mais solidão que num cinzeiro cheio. Lá fora tem pessoas demais com soluços, só que quase não dá pra notar. É preciso se esforçar bastante. Estão todos soluçando por um motivo qualquer. Uma cacofonia de soluços surdos, abafados por frases sem respostas, que vem e vão conforme você olha bem dentro dos olhos de cada um. Eu tenho todos os dedos de ambas as mãos. Cheguei aos quarenta, mas sem a menor perícia, sem o menor brilho ou dignidade. Ele sim sabia o que fazer com seus dois dedos da mão direita. E nem precisava abrir a boca. Dava pra sacar isso.
Da janela
Sexta-feira, 29 Agosto, 2008Abri a janela. Manhã quente. Um calor infernal por aqui. Acho que vamos todos cozinhar dentro das nossas roupas, carros, camas. Um pássaro grande e desajeitado deu um rasante bem em frente à janela e desapareceu logo acima da minha cabeça. Pensei que ele poderia ter se arrebentado contra o prédio, alguma vidraça, mas não ouvi barulho nenhum. Nem vi ele cair morto no chão. Deve ter mais coisas no mundo que não compreendo. Percebi, quando levantei o braço, que preciso de um banho. As outras partes também estão com um cheiro bem desagradável. Vou até o chuveiro e nada de água. Apenas um filetezinho escorrendo, como se fosse uma doença venérea qualquer, daquele cano na parede. Peguei o interfone e o porteiro falou que tá tudo normal com a água do resto do prédio. Perguntou se paguei a conta. Mandei ele enfiar a conta. Tampei a pia do banheiro e abria a torneira. Um filete um pouco mais consistente começou a sair e logo rareou, até secar. Deu uma quantidade razoável de água. Peguei uma esponja e comecei a me limpar. Tem aquela história que a criatura humana é feita à imagem do criador. Mas neste caso não teríamos de ser todos iguais? Parecidos, pelo menos? E no começo éramos todos irmãos, não é mesmo? Filhos do mesmo pai, mesma mãe, e a igreja católica vêm agora com este papo de incesto. Pura cretinice. Claro que tem mais a ver com a degeneração da espécie, com as perebas que aparecem quando se come da própria carne. Mas ainda não somos todos irmãos? Alguém deveria explicar melhor isso tudo aí. Acabei meu banho e tentei achar uma camisa mais ou menos inteira. Achei uma camiseta. Botei a mesma bermuda, chinelos e me sentei na cadeira de balanço. Funciona mesmo a cadeira de balanço. Acordei duas horas depois com um torcicolo filho da puta. É o preço de estar vivo, pensei. Enfiaram uns papéis por baixo da porta enquanto eu dormia. Nada para mim. Coloquei sobre um móvel e pensei em como seria a minha morte. Seria agradável? Seria triste para alguém? Eu sentiria dor? Essas coisas. Uma vez li que o suicídio é a única maneira digna de morrer. Não sei. Desde pequeno colocaram coisas na minha cabeça que me fazem ver o suicídio mais ou menos como uma punheta – um ato solitário e egoísta, que só dá prazer a quem comete e quando acaba não tem a menor graça, pelo contrário. Não consegui chegar à conclusão alguma e já são seis e meia da tarde. Sei disso não pelo relógio. As ruas estão cheias de trabalhadores honestos e os nem tanto. Estão cheias de suicidas em potencial, indo em direção ao que chamam de lugar seguro. Irão encontrar suas mulheres e filhos com as caras azedas e desiludidas de sempre. Vão se culpar pelas besteiras que eles querem ganhar no natal, no ano novo, no dia das crianças. Vão se achar inúteis e sacudir o pinto com raiva enquanto interrompem a mijada, talvez até batam uma punheta. Então eles se deitam resignados, lado a lado, de costas para suas esposas, com o gosto do purê de batatas encalacrado na garganta. Com ódio de não saber dizer não e chutar a bunda dos códigos de honra e ordem. É nessa hora que se descobrem desprotegidos embaixo dos lençóis engomados. Então fecham os olhos e sonham com o dia seguinte, com o trabalho pra fazer, com o trânsito e o patrão. São felizes desta maneira. Tem de ser.
Ervilhas verdes e puras são e serão sempre deprimentes num mundo cheio de imperfeições
Sábado, 16 Agosto, 2008
A TV saiu do ar bem na hora em que a jogadora ia marcar um belo gol, acho. Esporte bacana handebol, principalmente o feminino. Tem toda aquela coisa de “fair play”, mas não deixa de ter a graça de cotovelos nas costelas, dedos nos olhos ou no cu, quando o juiz não está de olho. Abri uma lata de ervilhas. Isso me deprimiu. Todas agrupadas naquele pequeno espaço sem luz por não sei quanto tempo. Olhei a data de fabricação e validade. Estavam ali há cinco semanas. Iam permanecer, se eu não tivesse aberto a lata, por mais doze. Isso se informaram a data correta. Nunca confiei nessas datas impressas nas embalagens. Houve um tempo em que caras remarcavam os preços diuturnamente, constantemente. Era a recessão. O que os impediria de remarcar as datas no fundo das latas e das outras embalagens? A lata trazia uma receita de como melhorar o sabor das ervilhas, de como misturá-las a outros ingredientes. Eu não tinha nenhum dos outros ingredientes, a não ser pó de café – e isso não estava na receita. Pra mim, elas são saborosas assim mesmo, puras. Existem poucas coisas puras no mundo que você pode comer sem nenhum acompanhamento. Têm algumas que ficam muito desagradáveis, como o arroz, por exemplo. Os chinas só comem isso, mas misturam com grilos e baratas e merda, presumo. Os chinas são a personificação daquela praga bíblica, aquela parte sobre a peste de gafanhotos. Sempre imagino aviões e trens e ônibus, lotados de chinas, invadindo as plantações mundo afora. É lá que está acontecendo a olimpíada, na China. Imagino se todos que estão por lá estão fazendo a dieta de grilos empanados e lesma à dorê. Em algum momento da minha vida eu quis ser uma ervilha, bem verdinha e roliça. Despreocupada, rolando pra lá e pra enquanto alguém prepara a comida. Eu ia ser aquela ervilha que sempre cai do prato em direção ao chão. Aí começariam minhas aventuras de ervilha. Alguém provavelmente me varreria para o lixo, tentaria acabar comigo, mas num descuido estaria eu rolando pra fora da boca do inferno, indo em direção ao ralo da cozinha. Uma vez nos canos, estaria livre. Provavelmente iria dar num desses rios de merda que cortam as cidades de norte a sul, leste a oeste. Eu iria para o oeste, para novas aventuras. Seria necessário aperfeiçoar a minha capacidade de flutuação, mas nada que não se pegue o jeito uma hora ou outra. Então eu pararia em algum ponto onde a correnteza enfraquece e ficaria por ali esperando as chuvas e com elas as cheias que me levariam pra parte alta da margem do rio. Uma vez lá, poderia fixar-me a terra e completar a minha missão de ervilha – fazer brotar um belo pé carregado de suculentas ervilhas, que seriam desejadas por quem as visse. Esse seria um possível fim pra mim, ervilha, mas gosto de pensar que um pássaro poderia se interessar pela minha sempre verde cor e me levar no bico, até o seu ninho. Eu, pela primeira vez tendo a noção do como é imenso e também inóspito é o mundo visto aqui do alto. Uma vez no ninho, serviria de refeição pra um de seus três filhotes barulhentos e esfomeados. Então eu poderia voar, teria asas, faria parte daquele pássaro, não de homens e mulheres mesquinhas e rastejantes, com os rabos sempre sujos, que não sabem, que não tem a mínima idéia de como é ser uma ervilha dentro de uma pequena lata de conserva.
Vou para Osasco, talvez volte qualquer dia
Sexta-feira, 15 Agosto, 2008É isso mesmo: Vou pra Osasco, na casa do meu amigo e irmão Linari. Vou ver o ensaio do La Carne, minha banda predileta. Vou encher o saco do Fernando Jordão, do Carinhos, do Chicão. Vou beber sem culpa, pular o portão. Acender um cigarro no outro e pregar contra as novas e milionárias seitas. Vou me sentir em casa, num canto, num colchão. Linari vai passar aqui me pegar. Já estou pronto, sempre pronto e esperando, mas a senhora que veste negro não me quer por perto. Devo ter feito alguma coisa pra ela. Mulheres são boas em guardar rancor. Quanto ao amor, um dia ele acaba. Acaba contigo, meu amigo.
Desespero e agonia também vem de cima
Sexta-feira, 15 Agosto, 2008Tem um gato desesperado alguns andares acima do meu. Disseram que é um papagaio. Se for, o desgraçado é muito bom. Conseguiu realmente me enganar. Tenho aversão a essas aves. Parecem mais inteligentes do que realmente são. Sei que são bichos estúpidos. Mas, e se não forem? Eles podem saber coisas demais. Tenho que aprender algumas canções, mas não consigo me concentrar em nada. Então fui fazer comida. Fiz um bom feijão. Comi com arroz de ontem e ovos. Estava muito bom. O segredo é imaginar que está cozinhando para alguém importante e está fazendo o melhor prato da casa. Às vezes funciona. Nem sempre dá certo. Conforme a pessoa que você imagina, tem vontade de cuspir no prato. Procuro pensar em quem admiro. Me sinto ridículo no momento seguinte, cozinhando pra quem eu admiro e sabendo que poderia também ser quem ele é, se tivesse em igualdade de condições. Não posso me dobrar a isso. Daí largo tudo e vou fumar um cigarro, deixando o almoço pra lá. A vida é para os de bom espírito. Li isso em algum lugar. Não faço idéia do que realmente significa. Parece mais uma daquelas pregações tentando convencer do pecado todo em que a vida está atolada e que você deve contribuir com o dízimo periodicamente, para aliviar a dor. Nesse sentido, as putas são a melhor igreja que conheço. O gato voltou a miar. Parece sentir fome, frio, raiva, tudo ao mesmo tempo. Parece que está com a espinha quebrada e seu apartamento está em chamas e ele insiste em lutar. Respeito isso. Pessoas se atiram pela janela de prédios em chamas o tempo todo, em vários lugares, quase simultaneamente. Poucos têm coragem de tomar a atitude certa. Visto lá de baixo, da segurança da calçada, parece um ato covarde, impensado. O único ato impensado que eu conheço é o nascimento. Uma longa e tranqüila noite lá fora. Um burburinho de desespero começando aqui dentro. Talvez eu deva ir ver se é realmente uma porra de um papagaio dublando gatos. Se for, ele está morto. Se for um gato, vou me juntar a ele. Talvez quebre a minha espinha e incendeie o apartamento apagando as pontas de cigarro no tapete. Talvez eu faça isso mais tarde.
A grande e vazia escuridão, ou apenas mais um negro sem chances
Sexta-feira, 15 Agosto, 2008Old Sunny jabeava no vazio. Era bom olhar pra ele e ouvir as velhas histórias de glória e fama. Parecia que podia tocá-las, em determinados momentos. Estávamos em uma espelunca, trabalhando apenas o necessário para sobreviver, quando descobri quem ele era. No começo me impressionou a agilidade daquele velho com uma vassoura. Depois veio o resto todo. Eu tinha muito tempo então decidi ficar ali depois do expediente, só ouvindo. Depois do velho tirar o macacão, entramos na primeira espelunca que vende cervejas às três da tarde. Na verdade acho que o lugar nunca fecha. Era muito cedo pra beber, mas não havia outra maneira ou qualquer possibilidade no mundo a nossa espera. Então era só relaxar e ouvir, assentir com a cabeça e chacoalhar o pau na privada. Depois da décima caneca, alguma coisa deu errado com o Sunny. Ele ficou calado de uma hora para outra. Ficou exagerada e estranhamente triste. Fechou os olhos e lágrimas de verdade escorreram pela cara enrugada do velho. Algumas contornavam o queixo, venciam a barba rala de negro e iam direto pra dento da camisa velha e amassada. Confesso que não é uma boa imagem pra se ver. Inda mais vinda de um amigo. O velho deu uns soluços que pareciam guinchos de acasalamento de uma espécie rara de melros. Vi isso uma vez num canal sobre vida animal. Nunca esqueci aqueles guinchos. Pra mim não faziam o menor sentido pra coisa toda. Acho que nem o narrador estava convicto do que estava falando, mas tinha de fazer o seu trabalho da melhor maneira possível, passar alguma credibilidade, mesmo que esta fosse totalmente absurda. Enfim Sunny ficou em pé, fechou o punho direito e desferiu um violento golpe contra a própria cabeça. Foi o fim. O velho desabou no chão. Todos se assustaram com o estrondo, mas presumimos, e conforme um enfermeiro alcoólatra atestou, ser tarde demais pra qualquer possibilidade de salvamento. Então o barman, de uma maneira muito respeitosa, serviu um copo para todos os presentes e bebemos a saúde de Sunny. Realmente foi um belo gesto.
Publicado por rkjazz
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