Quando Deus fechar os olhos, Cristo vagará sozinho pela eternidade

Foi diferente da segunda vez que cheguei aqui. Da primeira estava muito cansado. Alguma coisa dentro de mim tinha se dividido, quebrado.  Parecia que um desses anjos ou demônios que ficam nas esquinas tinha soprado minha alma pra longe de mim, bem longe. Que ela, a minha alma, tinha se cansado de andar ao meu lado e se escondeu em alguma parte que eu não consigo descobrir onde é. Ela que se dane. Que se divirta onde quer que esteja. Eu não estou me divertindo. Mas São Paulo é a cidade das oportunidades. Que oportunidades? Onde elas estão? Devem estar no mesmo lugar onde minha alma foi parar. Devem estar se divertindo com um grande copo dourado de cerveja, assistindo eu me foder naquelas TVs 14 polegadas que ficam ligadas dia e noite nos botecos mais imundos que eu já vi. Que se fodam as duas novas amigas. De manhã decidi caminhar um pouco pela cidade. Achei que isso ia me fazer bem. Não fez. Me perdi e minha ansiedade fez lembrar que o estomago está mesmo precisando de cuidados. Eu só queria achar um lugar que eu reconhecesse, quando achei, fumei tranquilamente um cigarro, depois de um belo rodízio de 12 reais. Eu merecia essa extravagância – preciso arranjar logo algum trabalho remunerado. Pela noite fui levar a filha de um amigo na rodoviária. Minha ansiedade voltou mas passou rápido quando percebi que todos estavam perdidos. Quem não estava me pareceu não  saber ao certo porquê estava indo naquela direção e isso dá na mesma. Enquanto esperava ela embarcar, um casal trocou um belo beijo de despedida. Ela ia viajar. Gostei da maneira com que se olharam, da cumplicidade que só existe quando se ama alguém de verdade. Fiquei pensando quando vou sentir isso outra vez. Acho que nunca mais – mas sei que estou sendo um pouco pessimista em relação a isso. Por algum motivo idiota na volta saí do lado errado da onde eu deveria estar e dei de cara com um emaranhado de passarelas que interligam todas as saídas. Se eu fosse um daqueles poetas ia dizer que pareciam grandes tentáculos de concreto. Mas eu não sou um daqueles poetas. Isso, de certa forma, é reconfortante. Decidi ir direto pra casa, pra meu lugar na sala, com um copo de café quente, ao invés de ir encontrar as pessoas bebendo nos bares. Estou quebrado, sem paciência pra ser razoavelmente agradável e beber todas as noites vai acabar com o pouco de dinheiro que me resta. Pensei no meu amigo. Senti inveja do prestígio que ele goza junto as pessoas, aos donos de bar que alimentam o buraco que ele tem no peito com boas doses de uísque, com histórias, com presságios e conselhos. Mas sei que isso dura pouco pra ele. Que logo ele volta a ter a expressão distante e aqueles ecos, todos muito sinceros, bem no fundo da cabeça. É o buraco aumentando. Pensei nesse único amigo que eu tenho por aqui. Me veio a imagem de Jesus crucificado. Me diverti imaginando Cristo descer da cruz, andando  por aí. Ele não teria  a mínima chance hoje em dia. Existem vários dele agora. Existem também vários atrás do perdão fácil. Têm coisas na vida, certas decisões e atitudes, que são bem difíceis de perdoar. Imaginei Cristo com o olhar resignado, voltando para a cruz. Colocando as mãos e os pés nos grampos. Então ele estaria à vontade, como se fosse a sua casa, o seu lugar. Sentiria-se, de certa forma, bem de volta à cruz. Isso lhe daria boas lembranças de novo, bons momentos. Então ele viraria a cabeça meio de lado e descansaria em paz, desta vez pra sempre, se não for tolo o suficiente pra ter mais daquelas idéias.

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