Alice
O apartamento sempre uma bagunça. Alice num canto com almofadas, copos, restos de pizza e algumas pontas. Ela não entende que tem uma criança dentro dela. Tudo é muito novo. Alguém sempre aparece com uma boa idéia pra fechar o mês. Alguma grana. Janelas com vidros faltando. Colamos cartolina com papel alumínio. Mesmo assim o frio entra e é impossível não bater os dentes. Decidi ir pra Califórnia. Lá pelo menos tem sol. Vendi umas coisas e levantei U$ 400. Isso dá pra passagem e algum tempo vadiando. Espero que dê tudo certo pra Alice. É muito cedo pra todos nós.
Algum lugar do passado
Tava ouvindo velhas canções. Na cozinha, pratos voavam. Sinto falta de certas coisas. Coisas pequenas, que cabem na mão. Esses caras sabem o que é bom. Sabem o que faz você voar. Lembro que eu gostava de você num vestido azul. Lembro como você sorria encabulada, quando eu pegava a tua mão. Lembro da cara da tua família, até do cachorro, quando você me levou lá uma vez. Lembro que eu acreditava em felicidade, em trabalho duro, em discos voadores. Lembro que a gente ficou em algum lugar lá atrás. É duro saber disso agora.
Nada é o que parece ser
Você pode fazer canções sobre o amor, sobre a falta dele. Qualquer coisa. É um mercado muito amplo, saca? Esse cara fala feito matraca. Impossível se concentrar ao lado dele. O lance era observar os cães. Tinha perdido quase duzentas pratas e o infeliz não calava a boca. De novo apostei no cachorro errado. Escuta aqui: dá pra calar a boca? Qualé, simpatia? Só tô tentando deixar isso aqui um pouco mais vibrante, saca? Por que sempre tem um idiota perto de mim? Rufus era filho do homem. Eu era a babá. Tinha alguém querendo apagar Rufus. Imagino se é por causa da boca de matraca. Sei, sei. Mas não se esforça tanto não, ok? Desci até o bar. Fui pegar uma dose e algumas castanhas. Quando voltei, nada do Rufus. Cinco minutos sozinho e o cara desaparece. Filho da puta. Cheguei a pensar em deixar pra lá e apostar de novo, desta vez em paz. O homem ia me tirar as tripas. Perder o filho dele. Puta cagada. Fui ao banheiro. Aparentemente vazio. Uma vez ouvi um troço assim: nada é o que parece ser. Comecei a olhar por baixo das portas. Cheiro filha da puta de urina e merda. Bingo! Abri a porta e dei de cara com o Rufus chupando um pau. Puta que pariu. Foi uma péssima idéia vir às corridas. Trazer Rufus. Acho que vou ter azar o resto da minha vida.
Sun Xplash
Sun Xplash é um negão folgado que circula por toda a 41 com a 56. Sempre que alguém pega o safado, alega racismo, maus tratos, o escambau. Ele e aqueles veados dos advogados. Eles têm tudo na ponta da língua. Sun é o cara mais traiçoeiro que eu conheci. Dizem que é o melhor com a navalha. Dizem que se uma das suas garotas sai da linha, Sun mostra como se usa a navalha, bem ali, entre as pernas. Desgraçado. Estou a cinco metros dele agora, e não vou ter uma segunda chance.