Mustang Blues

Meu velho pai falou pra não me aproximar do celeiro nas noites de sexta, quando a lua está cheia e alta no céu. Isso foi quando eu era pequeno, mas uma vez ou outra ele volta com esse assunto. Não acredito em assombrações, fantasmas, o que quer que seja. Temos um rancho de criação de cavalos.  Mustangs. São belos cavalos de sangue índio. São malhados e temperamentais. Muito determinados no serviço. Os primeiros, meu avô, pai do meu pai, pegou nas planícies mais ao norte. Eram selvagens e difíceis de lidar. São assim até os dias de hoje. Sou o responsável por reunir os animais no pasto, no final da tarde. Vez ou outra noto a presença de um índio montado em um cavalo, nas ravinas ao leste. Ele fica lá, olhando. Falei sobre isso com meu pai e que, quando acontece do índio aparecer, alguns cavalos somem. Ele ficou contrariado e disse pra eu não me meter nesse negócio. Não entendi por que ele não fazia nada a respeito. Numa noite, com os vaqueiros que iam levar a comitiva até a estação, meu pai estava bem animado e falante. Resultado de um bom uísque de milho no sangue. Então ele falou, sem eu perguntar, que as terras e tudo que há nelas é dos índios. Que eles só permitem que a gente viva por aqui. Entendi que eles pegam os cavalos como uma espécie de pagamento pela ocupação da terra. Não achei tão errado. De madrugada, a comitiva partiu com um grande número de cavalos. Fiquei olhando eles sumirem no horizonte. Depois fui ao celeiro tirar a sela do meu cavalo e arrumar as coisas por lá. Quando os cavalos vão embora, tudo fica em silêncio. Ao cair da noite, decidi sair e acender uma fogueira, como os peões fizeram na noite anterior. Tinha um pouco de uísque, então achei que era a hora de ser um peão de verdade. Em casa só minha mãe e meu irmão menor, de dez anos. Fui até perto do celeiro e fiz o meu acampamento. Aconteceu uma coisa estranha. Ouvi som vindo lá de dentro. Música ou coisa parecida. Fui ver, com a minha pistola preparada pra qualquer surpresa. Meu cavalo estava quieto, apesar do ruído aumentar conforme eu me aproximava do fundo do celeiro.  Estava lá um crioulo, sentado no barril de aveia, com uma guitarra no colo. Estava tocando alguma coisa parecida com um lamento. Me aproximei e fiquei ouvindo, com a pistola engatilhada. Quando ele parou eu perguntei quem era e o que fazia no meu celeiro. Ele riu alto e puxou um cigarro, acendeu e pediu um gole do uísque. Perguntei de novo quem ele era. Ele disse pra eu me acalmar e aproveitar a noite. Que eu não precisava da arma. Ele estava em paz. Só queria mesmo um bom gole e um cigarro. Começou outra canção. Era melhor que a primeira. Fui buscar a garrafa e ele parou de tocar. Me chamou pelo nome e ofereceu a guitarra. Eu gosto de tocar, mas não sou lá essas coisas. Sei algumas canções pra impressionar as garotas, nada demais. Naquela noite bebemos a garrafa, que parecia não ter fim, e emendamos uma música na outra. Não sabia que conhecia outras canções. Elas iam saindo daquele instrumento. Nos divertimos muito, a ponto de eu não notar que o celeiro e tudo ao redor estava em chamas. Até agora não sei se tudo isso, do negro e sua guitarra, aconteceu realmente, mas foi nesse dia que eu morri. Queimado, dizem.

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