Tem uma noite daquelas aqui fora. As estrelas aparecem e desaparecem, conforme você olha. Eu sou um cara deitado no meio da grama, pensando que poderia ser essa noite, a melhor de todas.
Sabe o que eu vejo? Eu vejo chamas ao redor. Não tente disfarçar - tá tudo pegando fogo… eu não sei onde ficam as escadas de emergência ou o caralho a quatro… eu sei que sou um dos que não vai se salvar… eu sei disso.
Um gole de café foi o começo de tudo, da minha amizade por ela. Moro em uma cidadezinha sufocante no meio do nada e que não oferece nenhuma diversão pra caras ou garotas da minha idade. A maioria do tempo, o pessoal… bom, deixa pra lá. Tava a caminho da lanchonete onde Sara trabalha. Uma espelunca na beira da estrada igual a outras várias em todo o trajeto da 61. Jeans azul justíssimo e surrado, blusa branca decotada e grudada no corpo como uma segunda pele – é a maneira da Sara protestar contra todo aquele tédio. Passo na lanchonete no final da tarde pra ver o que vai rolar. Estacionei o Pontiac 76 bem em frente da cabine telefônica. A merda do telefone tá estragado há pelo menos dois anos. Ninguém se importou de verdade pra chamar o conserto. Virou depósito de latas, jornais e garrafas vazias, entre outras coisas. Perguntei da Sara. Disseram que ela havia pedido a conta pela manhã e tomado o ônibus das 17:30. Não soube o que pensar. Não que fosse totalmente surpresa, mas fui pego de surpresa. Resmunguei alguma coisa, pedi café para viagem e saí. Sentei no toco que um dia fora uma árvore imensa. Quebrou com um temporal dos infernos e tiveram de cortar o que sobrou. Era onde ficávamos fumando, bebendo café e conversando sobre o que faríamos quando decidíssemos que já era o bastante pra nós. Seria uma boa idéia fumar um cigarro pra tentar colocar o pensamento em ordem, mas lembrei que havia parado no dia anterior. Voltei à lanchonete e pedi um maço dos vermelhos. Ninguém estranhou o pedido, muito menos eu. Perguntei se alguém sabia pra onde ela tinha ido. Ninguém sabia. Ninguém aqui se importa com quem parte. Quando alguém chega o interesse dura um par de horas, no máximo. Depois o novato é engolfado pelo ar úmido e pesado do pântano, que faz a memória parecer parcialmente apagada. Só sobram detalhes sem importância, nome e alguma habilidade manual pra não morrer de fome. A 61 parece não ter fim. Depois de passar pelo vale você pode escolher entre o meio oeste ou noroeste. Qualquer das rotas levam para as grandes cidades. As cidades que não tem sapos no jardim. Logo que passei pela porta de tela da espelunca perdi totalmente a vontade de fumar, mas mesmo assim acendi o cigarro. Decidi ir embora caminhando. Deixei o velho Pontiac 76 bem onde ele estava e parti a pé em qualquer direção. Ninguém iria se importar mesmo.
Manhã de céu limpo. O milharal quase todo no ponto. Algumas espigas sendo colhidas. De saias compridas, até os pés, ela estava abaixada. Parecia estar plantando ou arrancando algo do chão. Não deu tempo de ver o que era que estava fazendo. Caiu na terra e ficou lá, imóvel. Estava a mais ou menos cinco metros. Fui andando de costas até sair do milharal. Entrei no depósito e peguei o galão de gasolina. Ateei fogo em tudo. Com dez anos, o que esperava que eu fizesse?
Pois é, estou ouvindo Cássia Eller pra caralho ( o momento pede).

Esta é do disco “O Marginal” e é do Beto Guedes / Márcio Borges – acredita? Eu tinha este disco, mas emprestei pra alguém e nunca mais “me devolveram”… é, não aprendo mesmo. Vai a letra.
Caso você queira saber
Não quero você mais na minha casa
Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você
Eu não quero nada
Com seu riso indecente
Já conheço o seu tempero
Seu segredo e seu suor
Mas não consigo perder mais tempo
Você tem que ir embora
Já começa a amanhecer
Parece outro dia negro
Peter Bjorn and John (Young Folks)
Vou esquecer deste troço de tocar rock. Vou virar indie e DJ. Vou frequentar as pistas e fazer a rapaziada “antenada” com Manchester se acabar de dançar… porra, que pesadêlo. A trilha sonora seria essa – pelo menos é bacana.
P.S. tem uma versão, no You Tube, com o Rafael Martins ( do Wandula) no vocal e o Wood (do Wood & Stock) nos bongôs. Muito louco. Procurem. Muito louco a semelhança.
Luz dos olhos
Que saudade da Cássia. Ela era minha amiga, sem eu nunca a ter conhecido. Bastava colocar o som dela e a gente ficava conversando, enquanto não acabava a canção. Tenho muita saudade dela. Vi todos os seus shows aqui em Curitiba – não perdi um. Essa é do acústico (Luz dos olhos é do Nando Reis). Esse show foi no Teatro Guaíra (não esse que tá aqui em cima, óbvio), com abertura daquela mala da Ana Carolina (que show ridículo). Meu lugar era lá no segundo balcão, mas eu não ia deixar de ver a Cássia só por isso. Arrumei uma treta feia com as sapatas ao redor e tive de descer, pro meu próprio bem, lá pra platéia. Uma moça sorridente arrumou um lugar pra mim e eu sentei e a Cássia entrou. Parecia estar meio contrariada. O som tava uma merda, todo embolado e tal. Ela parecia bem cansada desta coisa de ser Cássia Eller, dava pra sacar. Nesse show não teve palavrões, nem Tavinho Fialho (que tocava baixo pra ela, é pai do Chicão e morreu num acidente de carro), nem os peitos dela dançando livres pelo palco. Ela tava séria. Eu senti cheiro de merda no ar, mas era show da Cássia e eu tava mais interessado em ver ela dar vida pras canções e tal. Gostaria muito de ter conhecido a Cássia. Gostaria de ter falado uma porrada de coisas pra ela – de babar ovo mesmo. Gostaria de mostrar a letra que eu fiz pra ela – quando ela morreu eu joguei fora. Gostaria de dizer que ela fazia tudo que eu gostaria de ter feito. Ela era uma mulher e tanto. Na verdade acho que ela não se matou não, como disseram. Foi uma merda qualquer que saiu do controle e ela dançou. Foi mais ou menos como o Sandman – cagada! Cássia, como você faz falta, mulher. Pra mim faz pra caralho.
Sue Jazz. Tremenda encrenca se aproximando. Na boca ainda o gosto do metal. Os dedos esgarçados e maltratados. Sue Jazz, brilhe, numa noite de fantoches, de palhaços, de isso e aquilo e aquele outro e propensões desenfreadas de sentimentos mundanos. Sue Jazz e seus treze talentos pra por tudo pra fora, melado, escarrado, engasgado. Sue Jazz como o brilho do diamante de vidro. Sue Jazz num solo interminável, vindo do fundo da alma, do estômago, da boceta, de qualquer lugar que grite alto. Sue Jazz como se ontem nunca mais existisse, como se o vento não tivesse a menor importância, como se a água fosse sempre rasa e quente e tivesse sempre esse tom avermelhado martelando a têmpora. Como se domingo fosse um dia sagrado. Como se a verdade estivesse aqui, de mãos dadas com a criança de oito anos num orfanato imundo. Como se nunca mais fosse natal. Os jornais vão vender a tua história com uma ponta de tristeza em grandes e molhadas letras. A luz vai acender e o vazio vai durar o tempo necessário, nem um segundo a mais.
by Gabi
Jam session na casa do Carlão!!! Eu adoro estes caras: Carlão (guitar de costas), Igor Ribeiro (outra guitar), Renatinho (baixista do Folhetim Urbano, na batera – se a memória não me falha), e eu… a tarde inteira, se deixarem… tem coisa melhor?