Juliette & the Licks – Purgatory Blues
Juliette & the Licks – Purgatory Blues
Tava fazendo uma limpeza geral na papelada. Muito lixo! Achei uns escritos antigos, umas fórmulas mágicas prum tal de frango não sei o que… Essas coisas. Joguei a maioria fora. Então achei esse poema e fui fumar um cigarrinho na sacada…
Quarteirão
Aquele que pede informações
Apenas para não perder o costume
De estar sempre perdido
O sol que derrete o asfalto
Como uma fita fora de rotação
A solidão partindo no ônibus lotado
Um velho bilhete esquecido num livro
Alguma espécie de espanto, quase
Um riso, ancorado no ainda não
Daquele que só depois do roubo se recorda
Que sujeitos estranhos rondavam o quarteirão
Marcelo Montenegro
Você tem belos dentes. Na cabeça dela, era uma coisa pra se dizer de um cavalo. Agradeceu bem sem jeito. Não passo meu tempo elogiando as pessoas por mais que elas mereçam. Passo prestando atenção num final, num fragmento de frase que faça sentido nessa conversa toda. A chuva bate forte, vem de todo o lado e vejo os pêlos do braço dela arrepiando. Você tem ficar até que horas? Que idiotice falar isso. Agora ela vai pensar que eu sou algum tipo de tarado que vai esperar ela sair e tal. Digo isso porque tá frio e chovendo… Idiota ao quadrado. Meu namorado vem me buscar. Ah! Que bom! Não disse que horas sai. Ela pensou mesmo que eu sou um tarado. Sempre que devo ficar de boca fechada, falo essas bobagens, e pior, pra garotas lindas. Na seção de desodorantes tem uma senhora que ficou abrindo os frascos e experimentando os perfumes. Ah! Sei. Ela vem sempre. Tem problema mental. Vou avisar o gerente. Ela não se mexeu no sentido de ir mesmo avisar o gerente. Eu, o idiota tarado, o dedo duro dos retardados, fiquei constrangido por ela e por mim e por toda a nação de retardados que só tem o mercado como distração. Bom, oitenta e cinco reais. Mais alguma coisa? Paguei a moça dos dentes brancos e perfeitos, dos olhos e rosto lindos, dos cabelos morenos a incrivelmente lisos e cheirosos. Nunca mais volto nesta porra de supermercado. Nunca mais.
Deixe o abajur aceso, não tenho mais vontade de dormir
Dos meus medos de criança, dragões por todo céu, embaixo do colchão
Eu não vou olhar, eu não
Se você fechar a porta, a minha solidão vai invadir todo o lugar
Pra onde eu olhar
Meu coração batendo, com medo do sim do não
Se você for embora
Vou me trancar em mim
Não apagar a luz
Nunca mais dormir
Nunca mais sorrir
Que medo do dragão
Por vir
Sugarcubes – Deus

Björk – na versão de Deus
Estranho não ter notado o garoto. O jardim estava todo decorado. Bexigas coloridas, panos pintados com motivos de pirata. Uma grande mesa com muitos pratos e copos. Uma churrasqueira perto da cerca, soltando fumaça dos hambúrgueres. Uma piscina de montar. Era um quintal feliz, ao que parecia. Dizem que criança traz felicidade. Lá em casa traz uma boca a mais, um corpo a mais, um incômodo a mais. Minha camisa branca estava ensopada de suor e sangue. Apertava a barriga por instinto, mas sabia que não ia durar muito. Gostei da visão do quintal. Vai ser a última lembrança. Como não notei o desgraçado do moleque com o espeto na mão? Atravessou de trás para frente. Criança traz felicidade. Para alguns.
Burial:
Our Lady Queen of Heaven Cemetery
Fort Lauderdale
Broward County
Florida, USA
Plot: Section L, Block 219, Grave 8
Tava com saudade disso! Mike Muir e Robert Trujillo (este foi para o lado negro da força e agora deve estar precisando de um psicanalista, ou coisa parecida), dois ex- Suicidal Tendencies que faziam um som bem bacana. Bom, recordar é viver… ou este blog é meu e que se foda.