Terça-feira, 18 Dezembro, 2007

A ponta da faca quebrou onde o osso do ombro se encaixa com o resto do braço. Deu pra ver daqui. Isso, fora as outras facadas, deve ter doído. Três horas da tarde. A rua é um lugar perigoso a qualquer hora. O mendigo ainda dorme enquanto o sangue escorre bem perto dos pés sujos. Muito próximo. Eu acendi outro cigarro. Preciso parar de novo de fumar. Faz mal mesmo. Não tenho a mínima vontade de descer até a rua pra ajudar. Depois tem a porra da polícia, que acha que sempre tem alguém devendo alguma coisa. Eu to devendo um pau no rabo desses filhas da puta. Vou até a geladeira pegar uma cerveja. Tem bastante sangue agora. O cara já deve ter se fodido. Eu poderia ter chamado uma ambulância, mas ninguém ia levar a sério. E depois, se levassem, ia demorar pra caralho pra chegar. O cara tá morto com certeza. Ninguém consegue ficar vivo sangrando desse jeito por tanto tempo. Quantos litros de sangue têm o corpo? Quatro? Cinco? Já era.  Fiz um sanduíche e voltei pra janela. Agora tem um grupinho de pessoas em volta do cadáver. Algum viado chamou a polícia também. O circo tá montado. Daqui a pouco os urubus da reportagem aparecem sobre a carniça. Uma merda isso. Uma confusão começou e o que eu previa aconteceu. Prenderam o mendigo. É sempre assim. A polícia é muito esperta.


Matador

Terça-feira, 11 Dezembro, 2007

Pão com queijo, café quente e amargo. Queijo me dá dor de barriga. Quando tomo café, urino pra caralho. Preciso cortar o cabelo, ir ao dentista, essas coisas que fogem ao nosso controle. Saí pra rua. Fui até a agência de empregos. Nunca tem nada que preste – mas trabalho presta pra alguma coisa? Trabalho com qualquer coisa. Isso todos sabem lá. Tenho ficha: Marcos Aurélio da Silva, número 12.366, prestador autônomo de pequenos serviços, procura vaga com carteira assinada na construção civil, motorista, etc. Passo lá por passar. Antes tomo o café da manhã na panificadora da esquina. Fico ali olhando o trânsito e isso me acalma, de certa maneira. Oi, Selma. Tem alguma coisa pra mim hoje? Pela cara dela sei que não. Olha Selma, quero incluir outra profissão aí na minha ficha. Quem sabe ajude. Ela foi pegar os papéis. Colocou na máquina de escrever, girou o rolo e o papel parou na posição que ela queria. Pode falar. Matador. Como? Matador. Coloca aí que eu também sou matador. Olha Marcos, eu sei que tá difícil de conseguir emprego pra você. Já te disse que a idade e falta de comprovação profissional não ajudam muito. E o curso do Senac? Você foi ver? Matador. Coloca aí que eu sou matador também. Kátia e Ângela, as moças que trabalham no guichê ao lado do da Selma, levantaram os olhos. Podia escutar um burburinho atrás de mim no salão dos fodidos. Marcos, isso não vai te ajudar. Pelo contrário. Pode piorar tudo. Olha, eu quero te ajudar, mas assim fica difícil. Matador, Selma. Coloca aí que eu sou matador profissional. O barulho do salão virou um riso só. Isso foi me subindo pelas pernas. Quem são essas pessoas, Jack? O que eles esperam desta merda de vida? Um trabalho? Um passe de ônibus? Um pão com queijo e café forte? Vão se foder vocês todos – berrei mais alto que podia. Sou matador sim e dos bons. O que é que tem? Hein? Não botam fé seus viados de merda? Querem experiência profissional, indicação? Morto não fala mais seus putos. Foi nessa hora que vi gente se espalhando em todas as direções. Chinelos, congas e outras peças da vestimenta dos desgraçados iam se desgrudando dos seus corpos. Kátia deu um guincho agudo e tentou se esconder atrás do balcão. Atirei de cima pra baixo. Escutei a bala quebrando a madeira e entrando bem no topo da cabeça dela. Ângela desmaiou, mas nem por isso eu ia deixar ela passar batido. Foi no meio da testa. Derrubei mais três no salão, então recarreguei o trinta e oito e me sentei em frente à Selma. Matador. Coloca aí que eu sou matador. Qualquer coisa você pode dar referência.


Quando o céu ta nublado, os tubarões saem à caça.

Segunda-feira, 10 Dezembro, 2007

 No ônibus lotado o cego pede centavos. A cegueira não tem mais jeito. O preto perdido e desconfiado pergunta pra todos  - onde devo descer? O cara sem pernas nem liga mais. Não existe preferência. Eu evito todos,  olhando pra fora.


Segunda-feira, 10 Dezembro, 2007

Estamos aqui, caminhando, os três, sob um sol filha da puta no meio de lugar nenhum. Ela tem a clavícula quebrada por uma bala de .45 e muito sangue perdido. Ele tem dezesseis anos e é de uma beleza incrível. Ela tem cabelo cor-de-rosa. Ele chama a atenção só com o que Deus lhe deu. A bala era pra mim, mas ela se pôs no meio, como sempre. Ela antes oferecia os peitos quando estávamos famintos, agora seu leite secou, sua vida esta secando. Ele não tem mais lágrimas e nunca mais falou sobre a vida comigo, mas por Deus, se sairmos desta, nunca mais vou reclamar da vagabundagem saudável deste camaradinha. Nunca mais vou chutar a sua bunda e falar as coisas de sempre. Nunca mais vou procurar entrar com tudo no seu ponto fraco, nunca mais vou sentir inveja da sua beleza de anjo. Vou comprar tinta nova pro cabelo dela e vê-la sorrir da idade e dos peitos em frente ao espelho. Vou deixar que as lágrimas venham com força e vou tentar ser um bom filho, um bom irmão. Mas pai, a gente ainda se encontra pra eu devolver a bala da .45. Prometo ter coragem e não errar desta vez.


Feel Good

Sexta-feira, 7 Dezembro, 2007

 

 Gorillaz


o Gótico e o Rafa, direto de Maringá, avisam

Domingo, 2 Dezembro, 2007