Quarta-feira, 31 Outubro, 2007

Gostaria de esvaziar a tempestade, o lixo, a segunda-feira interminável. A cidade não tem metrô, então temos de atravessar por cima mesmo. É bom se enfiar em buracos ás vezes, fazer de conta que é uma passagem pra um lugar diferente, não sei se melhor, que do outro lado vai estar, de braços abertos, a felicidade, com um vestido amarelo, cheirando a novo, com um sorriso perfeito e sem cáries, com as axilas depiladas e o coração batendo pros dois lados. Nunca é isso que acontece numa cidade sem túneis. Dizem que é avanço. Não sei de quem, não sei por onde avançar. A dor de barriga não deixa eu me afastar da privada então fiz uma assinatura de uma revista e de um jornal pra passar o tempo entre uma cagada e a seguinte – palavras cruzadas. Um amigo me escreveu do inferno e disse que está solteiro ainda. Que não sabia ao certo o que iria acontecer com a vida dele, mas agora que sabe, se arrependeu de não ter fodido mais, se drogado mais, desperdiçado mais tempo e água potável no banho, essas coisas. A revista fala de um golpe sujo na Palestina, outro no Azerbaijão. Fala de como o brócolis pode ser o responsável pelo câncer de colo do útero em travestis disfarçados de policiais. Dão dicas de tônicos capilares para os pêlos pubianos. Tem anúncios felizes e democráticos onde mulheres aparecem segurando as chaves do carro, até dirigindo – todos sabem que mulheres não deveriam dirigir carros, deveriam sim dirigir os tanques no Iraque. Nenhuma dica sobre como enfrentar os 10 passos da solidão – Edir Macedo nem tentaria discorrer sobre isso. Tenho saudade dos túneis do Rio de Janeiro, que são gigantes. Dizem que no Canadá tem uma cidade inteira embaixo da terra. Eu sei que gostaria mesmo de me mudar pra Atlântida, submersa. Meu médico diz que isso é apenas sintoma de depressão. Que com os comprimidos azuis, isso passa. Joguei eles no vaso junto com a merda mole e eles foram embora, pelos canos, pelos túneis. Devem estar em algum lugar feliz e azul agora. Eu os invejo.


O garoto dividido

Segunda-feira, 29 Outubro, 2007

Um garoto louro ainda pode escolher entre puxar o gatilho ou dar autógrafos na porta do hotel. O garoto negro não precisa dele mesmo para causar a mesma dor. É claro que, nos dois casos, isso causa alguma comoção por algum tempo. O louro está agora todo confuso na ante-sala do inferno, enquanto o negro está suando pesado, lá dentro, com o grande pau do demônio enfiado até o talo no seu rabo. É uma pequena diferença que muda tudo. Quais são as possibilidades disso dar certo? Quais são as oportunidades agora? Onde você estava ontem à noite? Eu sei só o que me disseram e eu não quero acreditar. A conspiração começou entre a prateleira de tomates e a de enlatados. Estávamos tentando fugir quando nos pegaram e tiraram a nossa roupa. Estávamos tão próximos como grãos de milho, mas eu suei frio quando senti a tua espera pra ser salva. Ainda existe a falsa esperança e é isso que nos mantém vivos ainda. É nisso que temos que nos concentrar e agarrar com toda a força. É isso que não nos faz temer a morte ou o que quer que passe perto. Já nascemos mortos e isso é inevitável agora.


Mais um dia, mais uma injeção…

Sexta-feira, 26 Outubro, 2007

Saí para vomitar. Tem restos do meu corpo espalhados pela casa toda, em pedaços de papel higiênico, em seringas descartáveis, dentro de copos com água pela metade. A gente vai se espalhando até por onde não imagina. Sou p.h.d. em certas coisas, poucas, bem poucas, mas entrar e sair de pronto-socorros é uma das minhas especialidades. Quando era moleque, caí da bicicleta e assim começou minha jornada pelo mundo das mulheres simpáticas de branco e das agulhadas de soro e injeções variadas. Já fiquei inconsciente por ter comido um cogumelo errado - jurava que tava batendo a coisa toda – por beber demais e outras lesões menos graves no corpo e na alma. Já me disseram uma porrada de vezes que posso morrer. E daí? O que mais pode acontecer, além disso? Um mundo à parte esse dos hospitais. A gente não se dá conta até estar atolado nele, sufocando com uma porra de máscara na cara ou qualquer outra coisa parecida. É um mundo aparentemente normal, onde as pessoas são iguais a você, só que sem o mínimo de piedade. Alguém me disse que eles têm de ser assim, que com o tempo você endurece. O caralho com isso. Queria ver se fossem eles numa maca, esperando a porra do Buscopan, se contorcendo de dor e de câimbras por conta da mesma dor. Se iam falar com toda aquela porra de calma irritante com uma bala no meio da cabeça. – E aí, maluco? Tu é roqueiro que eu sei. Se fodeu, hein? Não, só tô com essa porra de óculos escuro porque não consigo nem piscar de dor, imbecil. É um mundo sem compaixão. Se você reclama de alguma coisa logo vem o exemplo do cara que perdeu o pau quando um cachorro tava chupando ele e viu um gato atravessar a janela. Coisas assim. É impossível imaginar  essas mesmas pessoas andando na rua. Que elas se sentam ao seu lado na lanchonete e comem inocentes x-saladas. Que vão ao cinema, que trepam, que cagam e mijam igual a você. Eu não consigo imaginar isso nelas, essa “humanidade” toda. Passei e estou passando uma semana de cão. Mas não qualquer cão. Um desses da rua, que está com sarna, a pele em feridas, os vermes te engolindo de dentro pra fora. É assim que eu me sinto doutor, obrigado por perguntar.


Pois é…

Sexta-feira, 26 Outubro, 2007

O mundo não é realmente um lugar justo. Nunca foi. Bom, o Ivan colocou um vídeo da Cat Power lá no blog, no Tim Festival que a gente não foi… fazer o quê? Viva a internet… pobre é uma merda mesmo…


Curitiba, 26 de outubro, 8:15 da manhã.

Sexta-feira, 26 Outubro, 2007

Rita andava como uma louca pela calçada.  Na verdade estava desesperada pelo sumiço não anunciado de João, seu homem. João era bóia-fria no norte – roça de cana. João quase tirou fora o pé esquerdo. Veio pra capital pra tratar do ferimento e foi ficando, não tinha mesmo pra onde voltar. Morava numa casa de papelão embaixo do viaduto do Colorado, com Rita. Rita era casada com Antônio. Um par de filhos que nunca se aquietavam, sempre adoeciam e Rita não dormia nem comia mais. Sangue ruim – falava a sogra. Um dia ela saiu pela porta dos fundos, enquanto pendurava as roupas no varal, e não voltou mais – nem dela se soube nada. João não tinha todos os dentes, seus pés e mãos eram um calo só, mas se orgulhava dos braços fortes pela lida na roça. Tinha o cabelo bem preto grudado na cabeça num corte tigela. Nunca foi diferente. Fazia três semanas que tinha desaparecido das vistas de Rita. Pronto-socorro, IML, a rádio Esperança, os bancos das praças, das igrejas, os esconderijos das marquises, em todos esses lugares Rita procurou João, sem sucesso. Alguém  disse pra ir ver perto dos cinemas do centro. Ela foi. Ele estava lá, mas não sozinho. Vinha com uma morena muito magra, que pendia pro lado, que atendia por Marili. Isso enlouqueceu mais ainda Rita. Ela esbofeteou João até onde conseguiu força. Ele ficou lá, impassível, olhando pra baixo, sem dizer uma palavra. Rita berrava e fazia o povo desviar da calçada, mas sabia que mais nada podia ser feito. César era o filho mais velho de dona Tereza. Rapaz bom e trabalhador que sustentava a mãe e dois irmãos mais novos depois que o pai morreu de infarto sem deixar nem um tostão pro enterro. César acordava todo dia às quarto da manhã pro trabalho e sonhava em se casar com uma boa mulher. Não teve a oportunidade de terminar os estudos, mas estava fazendo seu melhor para que os irmãos tivessem mais sorte na vida. César nunca se apaixonou. Talvez por isso o descuido, a falta de atenção em observar o que estava acontecendo na calçada. Ele só estava fazendo o que fazia todos os dias. Rita sabia que nada mais podia ser feito. Então percebeu o grande vulto vermelho se aproximando e deu um passo para trás, pro asfalto. Foi colhida em cheio pelo bi-articulado de César. João continuou impassível, com os olhos baixos. Depois foi embora com a mesma expressão, com Marili ao seu lado. 


Sexta-feira, 26 Outubro, 2007

Para os meus irmãos – dentro e fora. Eles sabem quem são.

                                                                                       Edward Bunker

Lendo Bunker eu percebo que cada vez menos as pessoas se preocupam em ter uma relação verdadeira de amizade. Uma relação sincera de onde não se espera nada em troca a não ser o respeito, a compreensão que cada pessoa é um indivíduo diferente, com reações, necessidades e ideais diferentes, e que isso também pode ser bom. Onde ninguém mais espera que isso aconteça, acontece. Lendo Bunker percebo o cuidado que ele tem em deixar claro isso no personagem (como ele trata os amigos, como descreve a sua relação com cada um, como se relacionam entre si), e é comovente. É claro que é um romance, uma ficção, mas se ele, o próprio Bunker não soubesse o valor que tem a amizade, a confiança, o respeito e admiração desinteressada, não fosse ele mesmo assim, sua escrita seria uma farsa, e não me parece uma farsa. Pelo contrário. “Fábrica de Animais” é um lindo livro sobre amizade – também sobre sobrevivência e outras tantas coisas – que é mais que necessário ser lido, entendido e absorvido. É difícil chegar ao fim de um grande livro mas fica a lição, pra quem quiser aprender.


Livros!

Quarta-feira, 24 Outubro, 2007

Como estou de “molho”, vou aproveitar pra pôr em dia as coisas boas da literatura, que estão esperando aqui na estante. O primeiro é este aqui, que dispensa comentários.


Quarta-feira, 24 Outubro, 2007

É Santo pra cá e pra lá. De santo ele não tem nada, mas fazer o quê? Quando cai nas graças do povo, até santo vira. Santo, que não é santo coisa nenhuma, é cearense e tem uma borracharia na beira da estrada, quilômetro 75, sentido sul. Foi parar ali depois que descobriram que Santo tem uma quedinha, na verdade um abismo, em direção ao mesmo sexo. Santo até aprendeu a jogar bola, só pra ficar mais perto, mais próximo. O dia inteiro chovendo. A noite inteira chovendo. Santo sabe o que acontece sempre que a chuva não pára. O acidente foi mais para o norte, quilômetro 68, bem na ponte, onde a pista é simples e a direção troca de lado o tempo todo. Um caminhão e um ônibus do convento. Levaram os feridos para o hospital, os mortos pra borracharia do Santo – que fica bem onde os pneus não agüentam o chão da estrada. O lugar ideal – falou o corretor. O antigo dono foi morto num assalto e o lugar saiu baratinho, todo montado – até estoque tinha. Ficou aquela pilha de gente morta no galpão de trás. A chuva não parava, nenhum pneu estourado. Acidentes dão prejuízo na borracharia. A velocidade diminui muito e os buracos não fazem o trabalho direito. Santo foi até o galpão. Alguma coisa dizia, no pé do ouvido esquerdo, pra ele ir lá atrás, dar uma olhadinha. Deu de cara com um amontoado de gente em pedaços. Ficou ali olhando e rindo porque nem com muito remendo, e do bom, juntava tudo de novo. No meio dos pedaços, tinha um corpo inteiro. Uma dessas freirinhas novinhas. Santo ficou hipnotizado olhando o rosto e as vestes da freirinha. Não pensou duas vezes: levantou o hábito, abaixou a calcinha e meteu com tudo. Como Santo não era muito “chegado” em mulheres, colocou atrás, até o talo. Então aconteceu o “milagre”. A freirinha deu um urro e estalou os “olhões” azuis bem na cara de Santo – que de santo não tem porra nenhuma – e ficou se debatendo como peixe fora do aquário, gritando coisas de Deus e sei lá mais o quê. Veio daí o apelido, a “beatificação” de Santo – sua cruz. Agora Santo é “o santo homem que trouxe a freirinha de volta da morte”. Acontece que a freirinha, em confissão e principalmente fora dela, falou como o “milagre” aconteceu – e de seu tamanho desproporcional. Todos os dias, caravanas de freirinhas safadas chegam na porta da borracharia de Santo a pretexto de orar pela graça conseguida pela irmã, salva dos braços da morte, e em busca do paraíso – ou sei lá que nome aquelas putinhas deram pro pau do Santo.


Link novo!

Quarta-feira, 24 Outubro, 2007

O grande brother, poeta e escritor, Marcelo Montenegro voltou com seu “Orfanato Portátil”. Tem link aqui do lado. O Marcelo dispensa comentários. Vão lá e se deleitem com a escrita do cara. Grande abraço, Marcelão. Que tudo esteja certo contigo.


Então

Terça-feira, 23 Outubro, 2007

Pois é, dei uma sumidinha daqui. A causa: cálculo renal. Pois é. Me fodi, mas também dei algumas risadas. Depois eu conto minha odisséia pelos pronto-socorros da cidade – cada figura que você tromba na vida. Amanhã vou ver se explodo esta merda de pedra e volto a ser o bosta que sempre fui. Abraço.